dimarts, 10 de febrer del 2015

A QUEBRA DOS ESCUDOS Enquanto o Cardeal não tinha certeza da morte d'El-Rei D. Sebastião, não tratou fazer mudança alguma no reino, até que veio D. Francisco de Sousa, que trouxe carta de Belchior do Amarai da certeza da morte d'EI-Rei, que affirmava, como testemunha de vista, que o sepultara; com esta nova, desenganando-se o Cardeal das fracas esperanças em que estribavam, ordenaram logo em Lisboa fazer as cerimonias fúnebres que se costumam nas mortes dos Reis: pêra a qual, ajuntando-se os vereadores, pro- curadores, mesteres, e mais officiaes da camará, com os cidadãos (aos vinte e sete de Agosto, quarta feira pela manhã) na casa onde se faz a camará, sahiram d'ella por esta maneira iv vinha André Pires Rebello, alferes da cidade, em um fermoso cavallo murzelo, todo coberto com uma gualdrapa e cabeçadas de dó, e elle vestido em um capuz, com o capello na cabeça, cujas fraldas lhe chegavam ao chão : trazia uma ban- deira de canhamaço negra, mettida em uma lança, cuja largura chegava ao meio da hastea, e o compri- mento era tanto, que posta ao hombro ia arrastando pelo chão : diante do alferes ia o licenciado Lourenço Marques, juiz do CÍVEL, vestido em um capuz, com um

escudo negro na mão alevantado, arrimado na ca- 
beça, pêra que fosse visto de todos ; o qual ia cercado 
dos vereadores, procuradores, mesteres, e cidadãos, 
todos com varas negras nas mãos, e capuzes vesti- 
dos, e capellos na cabeça, a quem seguia grande mul- 
tidão de povo de pé e de cavallo, com alto pranto 
de vozes e lagrimas, com que denunciavam o senti- 
mento e tristeza da morte de um Rei mancebo, a 
quem o mundo, por sua fermosura e floreceate idade, 
adornada de grandes virtudes e estorço, promettia 
largos annos, com prosper<is triumphos. 

Com este tão triste espectáculo ia aquelle povo co- 
berto de luto, acompanhado de nojo e lagrimas, tes- 
temunhando com soluces e gemidos as maguas do 
coração de todos, por a orphandade que viam dos 
reinos postos em uma só esperança rio Cardeal In- 
fante D. Henrique, de quem, por sua iarga idade e 
consumidos membros, se não esperava successor, que 
por linha direita pudesse succeder na herança dos 
reinos. Com estas e outras considerações se acrecen- 
tava a tristeza de um povo pouco ditoso, com o des- 
emparo de tal Rei, com que em uns creciam as lagri- 
mas com dôr das angustias presentes, em outros o 
silencio com os trabalhos que esperavam. Com esta 
ordem e funeral pompa vieram aos degraus do tabo- 
leiro da Sé, e posto o licenciado Lourenço Marques 
em cima d'elles, dando signal de silencio com o es- 
cudo, começou em altas e dolorosas vozes a dizer : 
«Chorae, senhores, chorae, cidadãos, chorae, povo, a 
morte do vosso bom Rei D. Sebastião» e acabadas 
estas palavras, quebrou o escudo nos degraus, onde 
então se alevantou um alto e grande pranto de todo 
género de gente, a quem faziam companhia as mulhe- 
res que estavam pelas janellas, em quem se não en- 
xergava mais que um profundo nojo, que consumia
 os ânimos de todo o povo ; o qual cada vez se ia 
mais alevantando pelas ruas por onde ia aquelle tão 
triste espectáculo denunciador de grandes maguas : 
caminhando na forma em que já té li vieram, com 
outro escudo, que levava o doctor Duarte Lamprea, 
juiz do crime, foram até o meio da rua Nova, onde 
o quebrou pela mesma maneira acima dita, e onde 
logo alevantou outro o licenciado Gaspar Campelo, 
juiz do eive!, que o levou até o Rocio, ás escadas do 
esprital, aonde o quebrou com as mesmas palavras e 
cerimonias dos outros, d'onde voltando pelas ruas dos 
Arcos, vieram á Sé, aonde se disse uma missa
 cantada por alma d'El-Rei.