divendres, 25 de juliol del 2014

Tempo de Fantasmas. 1951. Alexandre O’Neill. «Donde teria vindo! (Não é meu…) De algum quarto perdido no desejo? De algum jovem amor que recebeu mandado de captura ou de despejo? É uma ave estranha: colorida, vai batendo como a própria vida, um coração vermelho pelo ar

Em Pleno Azul
Com horror mal disfarçado
sincero desgosto (sim!)
lágrima azul aflita
mão crispada de piedade
vêem-me passar cantando
calamidades desastres
impossíveis de evitar
as mães,
as minhas a tua
as que estropiam ternamente os filhos
para monótono e prudente
avanço da família.

E quando paro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia,
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais.

Então prometo congressos
em pleno azul.

Prometo uma solução
em pleno azul.

Prometo não fazer nada
em pleno azul
sem consultar o ‘bureau’
em pleno azul.

Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar.

Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas…
A que horas desejam que vos acorde?

Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte.

E as mães
onde estão elas?

As mães rezam as mães
cosem farrapos de dor
as mães gritam,
choram,
uivam,
no espesso rio de um sono
já quase só animal.


O Beijo
Congresso de gaivotas neste céu
como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu…)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
vai batendo como a própria vida,
um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
de duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
 
II
 
 Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome, como o destino, chega,
O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!

dissabte, 19 de juliol del 2014

NUMA PRAIA, RAPAZES E RAPARIGAS DA CLASSE QUE VIVE NA COSTA A QUE SE COSTUMA CHAMAR A FINA-FLÔR DA PULHICE PORTUGUEZA ...PERMITIAM-SE NESTA ÉPOCHA DE FOME E DESALENTO A EXTRAVAGÂNCIA DE DANÇAR VESTIDOS COM FATOS DE MALHA, GORDOS, OBESOS E QUASI NUS À BEIRA-MAR ...DANÇAS LUBRICAS QUE ALGUNS DOS RAPAZES TINHAM DE SE REBOLAR NA AREIA....PARA SE REFRESCAREM

QUANDO ATRAVESSO AS RUAS E AS PRAÇAS DE LISBOA QUE CONTRASTE

CONFRANGE-ME

ENXAMES DE GAROTOS DOS DOIS SEXOS, ESFARRAPADOS, QUASI NUS

IMMUNDOS, PIOLHOSOS, TUBERCULOSOS, DIVERTEM-SE

DIVERTEM-SE JOGANDO À BOLA E AO BERLINDE, DIVERTEM-SE ESCREVENDO

COUSA ADMIRÁVEL, PALAVRAS OBSCENAS MAL ESCRITAS NAS PAREDES

DESTA LISBOA EM RUÍNAS QUE PARECEM TER SOBREVIVIDO AO TERRAMOTO

TRAÇAM A GIZ E A CARVÃO DESENHOS PORNOGRAPHICOS

DEPOIS CORREM À DESFILADA E BATEM A TODAS AS PORTAS

POR VEZES SÓ PARA TEREM O PRAZER DE INCOMMODAR OS MORADORES

POR VEZES PARA PEDIR NAS RESPECTIVAS CASAS UM TOSTÃOZINHO PARA PÃO

OU PARA AS ABRIR E ROUBAR O QUE SE PODE VENDER

OU PREPARANDO O TERRENO PARA OUTROS O FAZEREM

AS LÂMPADAS ELÉCTRICAS, OS PUXADORES DAS PORTAS, OS BOTÕES DAS

CAMPAINHAS ....AS GRADES DAS JANELAS, AS CORTINAS

ENFIM TUDO O QUE SUBSTITUA A ESMOLA

OLIVEIRA MARTINS TINHA RAZÃO

PORTUGAL MORREU EM ALCACER-KIBIR E O SEU EPITÁPHIO FORAM OS LUSIDAS

divendres, 18 de juliol del 2014

25 DE SETEMBRO DE 1915 OS ALIADOS CONTRA-ATACARAM CLORO COMPRIMIDO EM CILINDROS 2000 CILINDROS POR KM - ESTES CILINDROS TÊM O INCONVENIENTE DE PODEREM SER DESTRUÍDOS POR ATAQUES DE ARTILHARIA COMO SUCEDEU EM 3 DE SETEMBRO DE 1917 DANS LA FERME NAVARIN LES FRANÇAIS CAPTURAM UMA ORDEM DE ATAQUE COM GÁS DAÍ A DUAS SEMANAS

UM TENENTE BRITANICUS LIVENS CONSTRÓI EM JULHO DE 1916

UMA BOCA DE FOGO PARA ENVIAR PROJÉCTEIS CHEIOS DE GÁS (PROJECTORS)

A GRANADA T JÁ ERA ESTUDADA DESDE 1914 PELOS ALEMÃES PARA OBUSES

DE CAMPANHA E FAZEM O PRIMEIRO ATAQUE A JUNHO DE 1915

NO DIA 20 DANS L' ARGONNE....SOUS LE PLATEAU....

20 METROS CÚBICOS DE GÁS POR CADA GRANADA DE CALIBRE 75

E 200 METROS CÚBICOS PARA AS DE 155 mm

SOMME 6 DE MARCH OF 1916 CAEM 200 MIL GRANADAS DE GÁS

OUTUBRO DE 1916 FRANCE STOCKS DE VINCONITE (HCN)

SÓ É LANÇADO O ÁCIDO CIANÍDRICO EM SETEMBRO DE 1917

YPRES 20 JUILLET YPERITE GÁS MOSTARDA

SULFURETO DE ETILO DICLORADO

NOW DI COLORADO....

The second gas was dichloroethyl sulfide, mustard gas, 
Yellow Gross or Yperite. Mustard gas, as it is commonly 
designated, is probably the most important single poisonous 
substance used in gas warfare. It was first used by the 
Germans at Ypres, July 12, 1917. 
The amount of this gas used 
is illustrated by the fact that at Nieuport
 more than 50,000 
shell were fired in one night, some of which 
contained nearly 
three gallons of the liquid. 

Mustard gas is a high boiling and very persistent material, 
which is characterized by its vesicant 
(skin blistering) action. 
Men who come in contact with it, either in the form of fine 
splashes of the liquid or in the form of vapor, suffer severe 
blistering of the skin. The burns appear from four to twelve 
hours after exposure and heal very slowly. 
Ordinary clothing 


is no protection against either the vapor or the liquid.

dilluns, 7 de juliol del 2014

VENDEIA - NO BOCAGE 300 PEÇAS DE ARTILHARIA E 200 MIL MORTOS ATÉ 1794 EM DEZEMBRO DE 1912 REVOLTAS ANTI-COLONIAIS EM TIMOR FAZEM 12 MORTOS NAS TROPAS AUXILIARES - SIPAIOS SEPAHI...CIPAIOS ....

JAPÃO NO DISTRITO DE SHIMAMBARA E AMAKUSA 25 MIL CAMPÓNIOS

CHRISTÃOS REVOLTAM-SE E ENTRINCHEIRAM-SE EM DEZEMBRO DE 1637

120 MIL SOLDADOS ATACAM O CASTELO DE HARA

E DOMINAM A REBELIÃO EM ABRIL DE 1638

A MISSÃO QUE CHEGA A NAGASAKI A 6 DE JULHO DE 1640

COMPROMETE-SE A NÃO ENVIAR MISSIONÁRIOS

POR TEREM VIOLADO A LEI DA EXPULSÃO

SÃO DECAPITADOS OS EMISSÁRIOS E 57 TRIPULANTES

A NAU É QUEIMADA E METIDA A PIQUE

É CEDIDO UM JUNCO PARA O PILOTO E DOZE PRETOS OU NEGROS

REGRESSAREM A MACAU...

ONDE A NOVA DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUCALE DOS FILIPES ...

SÓ CHEGA EM MAIO DE 1642

BIRÔDO ....VELUDO

BÓRU - BOLO

KARUMERA - CARAMELO

COMPEITO - CONFEITOS

SHABON .....SABÃO

KOPPU - COPO

BIIDORU OU BIDORO - VIDRO FRASCO....

KARUTA ....CARTA

divendres, 4 de juliol del 2014

Em 1553, Coimbra desfructava o seu maior esplendor scientifico e litterario. D. João III contratara, por mediania do Dr. André de Gouveia, principal do Collegio de Santa Barbara em Paris, dos mais celebres professores das universidades européas, que vieram ao Mondego, leccionar artes, mathematica, rhetorica, humanidades e linguas, reformando-se logo os collegios que havia, e fundando-se outros, com desusado luxo e ordenação. Já muito antes a nossa universidade se tornara foco de litteratura, algo. luzente, illustrado por Sá de Miranda em 1627 (*), por Camões em 1538, e em 1553 pelo Dr. António Ferreira, á volta de quem, jungidos, os novos levantaram a poesia nacional do século XVI. Com a vinda dos lentes estrangeiros, e especialmente dos francezes, fez-se a vida escolar fraterna e muito dócil*, estudantes e lentes privavam commumente, participando dos mesmos conclaves, e entretendo os ócios com jogos floraes e discussões. Ia longe o tempo da fidalguia obcecada pelo esclusivo amor das ladroeiras coloniaes, que verbera Camões no canto V dos Luziadas:

 « Mas o peor que tudo he, que a ventura 
Tão ásperos os fez, e tão austeros, 
Tão rudos, e de engenho tão remisso ...» 
André de Rezende, na oração de sapiência de 1534, recitada na universidade, annuncia o movimento scientifico da Renascença, concitando a mocidade portugueza a impulsional-o, e agora que decahia a conquista, com os mesmos filhos dos lettrados e riCo-homens, os dos príncipes, vinham ao Mondego adorar Minerva e as nove irmãs (*) 
Em 1526, estando D. João III e a corte em Coimbra, fugindo á peste de Lisboa, representaram-se no paço real, seis farças novas de Gil Vicente, que residia então em Santarém.
 As representações scenicas que costumavam dar lustre ás datas graves da universidade, com a revoada estrangeira, alcançam como que um novo tom de alta cultura, e as peças theatraes dos académicos são o sphygmometro por onde aferir d'ahi em diante as sympathias ou antipathias escolares em bellas-letras. Aié li campeara o que chamaríamos o theatro portuguez da Edade-Média : alguma tragedia de Séneca em latim, alguma lambida paródia aos mysterios francezes e castelhanos... 

Mas apparecem os EsU^angeiros e o Vilhal- pandos de Sá de Miranda, resabcndo, certo, ainda ás reminiscências latinas de Terêncio e Plauto, mas já com uma tintura moderna, italiana ; apparecem os Amphitnóes de Camões, em redondilha popular, representados em não sei que festa universitária, lingua tersissima, humor plebeu tunante, directa inspiração dos autos de cordel de Gil Vicente, — « comedia, diz o Sr. Theophilo Braga, que só se explica como reacção turbulenta de escola, que chasqueava por esse modo das coisas em que os graves doutores queriam ainda misturar o ensino » — apparece o Bristo, de António Ferreira, o amigo dilecto e o camarada litterario do professor estrangeiro Diogo de Teive, representada por académicos a quando as festas nupciaes do príncipe D. João, comedia a seu turno de reacção contra Camões, e aspirando á renovação clássica dos francezes; e finalmente, quando já a plêiade quinhentista rutila na plena gloria d\ima restauração litteraria abundantissima, eis a Eufrosina, do cortezão Jorge Ferreira, a primeira comedia portuguesa escripta em prosa, e reflectindo o génio hespanhol da Celestina, de Rozas. 

 O prior do Crato, D. António, filho do infante D. Luiz, estudou em Coimbra, no collegio do mosteiro de Santa Cruz, e o mesmo succedeu aos filhos do duque de Bragança, D. Theodosio, um dos quaes, Theo- tonio, arcebispou em Évora, sendo o outro D. Prior de Guimarães. 

O que seriam, nesta época de plethora intellectual coimbrã, dada a camaradagem jovial de mestres e discípulos, taes representações, mirando de mais a mais demolições e vindictas litterarias, julgue-o o frequentaflor das nossas primeiras récitas de D. Maria, quando os passionaes do gallinheiro e da platéa, rubros se engalfinham, a propósito da traça d'uma peça, e da estupidez ou talento de um autor. 

Em 1551, acabando o prior do Crato de cursar philosophia e metaphysica, seu pai, D. Luiz, solicitou do geral de Santa Cruz o gráo de bacharel em artes para o moço; e concedido, houve no claustro representação da tragedia do Gigante Golias, por collegas. 
A tragedia era em latim, com coros e musica mui suave » ; mas tal caçoada foi essa noite de theatro, que ficou da récita a palavra goliardo (frascario, rufião), rememorativa das tropelias que a rapaziada por lá fez. 
Quando D. João III entrega aos jesuitas o ensino, depondo o cordeal Diogo de Teive, e encarregando á grammatica do padre Manoel Alvares, a missão de bestificar as intelligencias, o divorcio da familia estudiosa pronuncia-se, categorisando-se os lentes por forma a separarem-se da bohemia familiar c'os seus discipulos; 
e esta separação, trazendo a perda da confiança, e quebrando a fraternidade commum dos ideaes e das tendências, interdiz a amisade entre os dois grupos; 

e o lente faz-se uma espécie d'idolo despótico, que o estudante acata, pro forma, e de cuja pedanteria se desforça, pelo chasco.

Escapa-me a chronica theatral da universidade até á fundação do theatro Académico, em 62, pleno constitucionalismo; nem tampouco eu poderia aqui espalmal-a, já por ser longa, já porque n'um simples folhetinista diriam mal pretenções de historiador. Sei só que era já velho o costume de se solemnisar o terminus do curso com uma récita de escolares, e que havia na rua da Mathematica uma antiga  casa de aluguel, onde, nos começos de julho, se carpintejava proscénio para a peça, estando para se representar ahi o Catão, de Garret, o Leitãosinho, quando o bispo conde D. Francisco de Lemos, farejando-lhe tendências jacobinas, mandou fechar a casa, e prohibir assim todas as récitas. 
Desde 182... até 52, não houve theatro, ou raras vezes, que as anciedades liber- tárias da juventude, por aquelles calamitosos tempos, compraziam-se mais na acção, do que nas fantasmagorias plumitivas. A' geração de Garret, succedera a dos seus exagerados sacristães, os ultra-romanticos, e a obsessão medieval roia o estro desses meninos de coro universitários, João de Lemos, Rodrigues Cordeiro, Thomaz Ribeiro, etc. ; até que a geração de Anthero do Quental e de Queiroz, fez morder á litteratura universitária, um novo freio. 
Continuava a thronar na universidade o regimen encarcerante de Pombal, ultimo reformador da casa, tanto monta dizer que o divorcio entre estudantes e lentes, proseguia, e prosegue, encontrando-se apenas nas aulas, exigindo estes á entrada o tradicional desbarretamento, e perseguindo aquelles até ao ponto de fazerem intervir nas notas do curso, os mais insignificantes e mexericados detalhes da vida particular. 

Em 1862 o lente de theologia Marmelada , ex-frade cruzio, rapozou sinistramente um urso, ou premiado, que se apresentara ao exame, de  buço. 
Antes do acto, como ainda hoje, os estudantes ouviam missa e commungavam, pronunciando apóz, deante do jury, uma oração latina em que juravam defender o mysterio da Immaculada Conceição

Argumentam-me depois co'a pudicícia alvoroçada das madamas, o que me obriga a dizer que o madamismo nacional tem do pudor uma postiça e tola ideação. Na literatura, princezas, não ha nem pode haver palavras sujas. O que ha é assumptos sujos, assumptos pulhas, deletérios assumptos, que os escritores não inventam, e fazem parte do dia a dia da cidade, assumptos enfim de que a linguagem escrita é apenas o impreterivel signal graphico. Consequentemente o pudor feminino tem apenas, como meio d'impedir que os pamphletarios escrevam plebeísmos, o evitar que a sociedade seja menos torpe, e os seus maridos e irmãos menos canalhas.

Rochefort por exemplo estava servido, 
se para demolir o império na Lanterne 
empregasse a proza do chronista nacional 
Alberto Braga. 
Argumentam-me depois 
co'a pudicícia alvorotada das madamas, o 
que me obriga a dizer que o madamismo 
nacional 
o evitar que a sociedade seja 
menos torpe, e os seus maridos e irmãos 
menos canalhas.  
Na velha universidade de Coimbra ha o costume 
de se solemnisarem as formaturas do 
curso de direito, com uma espécie de farça (FARSA), 
onde os estudantes do ultimo anno, ao mesmo tempo 
autores e actores, logram dar traças, já livres 
da ferula, á sua veia cómica e satyrica. 

Ignoro se esta sorte de representações burlescas 
deriva estrictamente, na correnteza dos 
séculos, de tradições litterarias appensas áquelle 
grande instituto nacional, porque á uma, a 
historia da universidade de Coimbra não está 
feita; e á outra, attento o regimen jezuitico da 
casa, taes espectáculos, fazendo para assim 
dizer nótula á parte, não mereceram traslado 
tios archivos onde a vida dos académicos não 
consta além do registro de matricula, e algumas 
notas d'anno, estenographadas em lingua secca 
burocrática. 

E' porém natural e quasi certo, 
que semelhantes festas, de longa cifra 
tenham existido e servido para realçar 
o ouro de certas datas^ 
visto a organisação da universidade e suas 
successivas remodelações, reflectirem, par e 
passo, as dos estabelecimentos estrangeiros,, 
paralellos, e haver na chronica destes, menção 
jovial de representações e tertúlias apadrinhadas 
pela respectiva regra interna. 

Em todos os tempos, a contemplatividade 
portugueza só inventou quando não havia mais 
donde imitar ; e assim na constituição dos 
estudos, foi tudo, desde as minuciosas linhas 
dos programmas, té aos pequeninos detalhes 
da policia interna dos collegios, e rigores 
clericaes da fatiota e da etiqueta. A veste 
clerical, por exemplo, que era a toga dos antigos 
philosophos, adoptada pela igreja, conservou-se 
nos claustros da universidade portugueza, como 
imitação d'outras, estrangeiras, e em canções 
satyricas do Cancioneiro da Vaticana, lá vem 
menção do trajo ao uso de Montpellier, dos 
escolares do tempo de D. Diniz. 

« Mais vejo-lh'I capello d'Ultramar, 
e traj'al uso bem de Mompilhér ...» 

Encontro em um livro de Paul Bourget^ 
sobre as universidades de Oxford, menção 
graciosa d'uma espécie de saráo de quintanistas, 
em cujas desenvoltas linhas geraes presinto a 
tradição medieval d'uma aberta de chalaça 
interrompendo a gravidade cathedratica, e 
dando ao estudante a sua hora de reprezalia 
faceta sobre os lentes. E' na festa annual, 
 em honra dos humanistas, no 
theatro académico, Sheldoniam Theatre, com 
assistência de lentes e familias, para entrega, 
aos que findaram o curso, dos respectivos 
diplomas de doutor. « O aspecto exterior do 
edifício, em retunda, escreve Bourget, singula- 
risa-se ainda por uma ordem semi-circular de 
bustos colossaes — caricaturas de pedra, que uns 
dizem representar Césares de Roma, e outros, 
sábios illustres da mãe Grécia. Interiormente, 
desenrola-se uma galeria, contornada de balcão, 
onde a pragmática manda permanecer sempre 
de pé. Na extremidade do balcão, um estrado, 
e duas tribunas análogas a púlpitos d'igreja, 
altas, de dois metros, e destinadas a pedestaes 
d'eloquencia. 

a A's onze da manhã, balcões e galerias, 
começam a ser invadidos de gentana, e fica 
somente vasio o estrado onde devem tomar 
iogar as mulheres dos dignitários d'Oxford, e 
os convidados doestes, reservando-se poltronas 
para o vice-cancelario e os assessores. Reclama 
o uso, que os estudantes, dessiminados nas 
partes superiores da galeria, lancem a propósito 
do menor incidente, exclamações de todas as 
sortes. A uma dama d'amarello, que vai tomar 
Iogar no estrado, « três animações á de amarello! » 
grita uma vóz do gallinheiro; e três hurrahs 
expludem, lançados por centenas de pulmões* 
« — Mais três pela cunhada do viuvo ! » diz. 
outra vóz, fazendo allusão a um projecto de lei, 
recente, autorizando o casamento entre o viuva 
e a irmã da morta. Hurrahs de novo, ao som 
da vóz propondo agora « três animações ao 
Dr. N. ! . 

a O Dr. N. é um bom velho jovial, meio 
decrépito, que se demora de mais co'os perió- 
dicos, no Club Union, e que os estudantes 
accusam, de na sala de leitura, se deixar 
dormir, em vêz de ler. Figura no estrado em 
vestuário de professor, mas isso não impedirá 
que de quarto em quarto de hora, durante todo 
o tempo da cerimonia, a endiabrada voz lance 
o foguete de a lá se deixou dormir outra vez o 
Dr. Ni ! », que faz estalar a sala em acclamaçóes. 
Vai assim uma ondulação de clamores e de 
dichotes, te que o órgão começa o God sape 
ihe qiieen, e os bedéis, com suas massas de 
prata, afastam a multidão para dar passagem 
ao vice-cancelario, cm grande gala, e ao seu 
cortejo. Nem por isso os hurrahs adormecem, 
senão tomam objecto preciso, sendo todos os 
altos personagens do cortejo, acclamados, uns 
traz d'outros, emquanto do alto do logar da 
presidência começa o vice-cancelario uma arenga 
em latinório. A vóz delle é sem cessar mordida 
dos apartes que vêm dos quatro cantos da sala, 
e levantam nos espectadores, tempestades de 
risadas. Dir-se-hia um meeting politico, se não 
fora a cordialidade respirada na communhãô 
galhofeira de tantas bôccas juvenis. Nem o 
vice-cancelario pensa em se zangar contra os 
apartes, nem os trocistas têem por um momento 
a ideia de lhe ser desagradáveis... Acabada 
a parlenda, é occasião de serem recebidos os 
estrangeiros a quem a universidade confere 
est'anno, diplomas honorificos — sem duvida 
foi destas cerimonias que Molière troçou, na 
recepção fantasista do Malade, 

« Os futuros doutores são conduzidos em par 
do estrado, e levam ao hombro a toga negra, 
com o signal de seda escarlate. O introductor 
faz de cada qual, o elogio, latino, concluindo 
por que o candidato deva ser admittido ao 
doutorado — honor  cansa. Responde-lhe com 
o dignus est entrare^ o vice-cancelario, o qual 
termina por um honoris cansa, que toda a sala 
repete ; e vai o novo membro da universidade 
assentar-se n'um banco reservado, emquanto, 
a julgar pelo charivari dos insurrectos, « o 
Dr. N. ronca de novo ...» Mas já outra vóz, 
grave e mui forte, a do orador publico, dobra 
em latim a oração dos mortos illustres da 
universidade, esse anno; dois laureados se lhe 
seguem a ler publicamente algumas paginas 
dos a ensaios » coroados nos concursos : Vida 
das universidades na Idade Média, Commercio 
marítimo da Inglaterra, etc. 


Se desta vez « o dr. N. está a roncar •, 
conforme pretendem ainda alguns graciosos do 
paraiso, é que o bom velho é mouco, tanto os 
applausos e os berros sobrexcitam o theatro 
em convulsões. Uma chuva de flechas de papel 
cae das alturas. E a violenta jovialidade physica, 
transparece e espadana livremente, cortando 
os versos latinos, gregos e inglezes, que outros 
laureados recitam, com ademanes doutoraes . . .  

Tal é nas universidades inglezas o estado 
actual das festas solemnes d'estudantes, e 
prevê-se que ellas obedeçam á tradição que as 
fixou nos claustros académicos, e, dada a 
inamovibilidade do praxismo inglez, as trouxe 
até nós, muito pouco ou quasi nada deturpadas. 
Com a necessidade oratória, orgânica, do exa- 
gero, que é nos meridionaes lei de conducta, 
deviam essas diversões revestir por cá uma 
espécie de debordante jogralidade, ávida, como 
é nosso costume, de satyras sangrentas, de 
grossas allusões visando, ao pessoal, e tanto 
mais crua, quanto mais férreo o despotismo 
disciplinar estatuido, do professor sobre o 
rapaz. 

Em todas as corporações e instituições da 
Edade Média se acham vestígios desta bonhomia 
singular de se conceder aos humildes, o seu dia 
de desforço, pela irreverência e pelo escarneo. 
Eram os barões feudaes, senhores de forca e 
cutello, e com auctoridade despótica sobre o 
burgo, servindo n'um certo dia, como lacaios, 
os próprios servos, e deixando-se apupar e 
descompor no meio das gargalhadas da canalha. 
Os reis mais duros, ouvindo nos anniversarios 
celebres, pela bôcca dos foliões, verdades 
terríveis, que lhes mandavam os poetas do 
descaramento das farças, mal embrulhadas, 
como em Gil Vicente, na rocamboleria d\ima 
efabulação pouco illudente. 

A própria Igreja, de lithurgias tão ásperas e 
apotheoses fanáticas tão bisonhas, abrindo as 
naves á representação dos autos desbocados, e 
deixando entrar, na festa do papa doido, 
procissões de bêbedos e rameiras, tocando latas, 
e conduzindo em triumpho um parvo, ás ecarranchas 
n'um asno, e com uma tiara de papel 
sobre a cabeça. No respeitante á universidade 
portugueza, o que nestas bambóchas de vinte 
e quatro horas, de vivo houvesse, em tempo 
antigo,tempo devorou-o (ou não o conheço 
eu, o que é mais certo); mas pelo que se sabe 
de similar na chronica paralella, é de prever 
que ellas não andassem longe do que Bourget 
nos conta, relativo ás universidades d'lnglaterra.