aqui por acaso em época terrível dum ano excep-
cional, sofreram as agruras dum inverno serôdio.
Estranharam. Retraíram-se. Breve com a sua grande
facilidade de adaptação sentiram-se em país con-
quistado. Como na sua grande maioria vieram das
ocupações agrícolas, não é raro vê-los pelos campos,
misturados com o indígena, trabalhando a terra.
Facilmente aprenderam também da língua o
indispensável para se fazerem entender. Além de
que a guerra criou ^nestas paragens* uma espécie
de argot internacional, de reduzidos termos para
as coisas urgentes da vida, aconteceu que eles vie-
ram encontrar no patois, a língua popular da re-
gião, vestígios directos das línguas peninsulares»
aqui deixados pelos dois povos respectivos, a
quando as guerras da Flandres. É assim que mui-
tas palavras do patois se assemelham grandemente
às suas correspondentes em português: capeie, ca-
pela, vaque, vaca, chope, copo, caíere, cadeira,
frou, frio, etc.
Todavia ocasiões há em que o português, por
demais sabido em muitos mistérios da língua
grandemente afecta desconhecê-los. Dum caso sei
eu, que ouvi fortuitamente na conversa de dois
soldados.
Um deles contava ceita aventura que houvera
com uma rapariga francesa, a qual, em dado
ponto o sacudira com palavras desabridas, ao
que êle, teimando, respondia, feito parvo: — Non
compris !
O outro, que ouvia calado, comentou: — «Sim,
sim. Curto precisavas tu que te pusessem.»
Eis, a traços largos, o scenário e os actores. A
acção, toda a acção epo-cómica, ninguém terá a
coragem de a contar por inteiíp. Há conveniências
a respeitar. Eu proponho-me dizer o mais que se-
ja possível da verdade e, como este ponto de ob-
servação é mau, vou mudar-me.
Voltei de novo a Dohem, a 8. Aqui sufoca-se.
Esta vida, triste e monótona, longe de toda a emo-
ção profunda que não seja a lembrança dos que
estão longe, enche deste mal terrível e tedien-
to, destruidor da vontade a que aqui se chama
neura.
Ora eu vim para a guerra; não foi para isto.
Durante muito tempo se afirmou que a ambu-
lância ia seguir para a frente. Mas o tempo passa
e à ambulância fica. #
Depois o outono caminha. O vento, o frio e a
chuva chegam. As brumas do tempo pesam tam-
bém na alma. E dos altos da pequena aldeia, os
poentes da Flandres, duma finura sutílima de tin-
tas, cambiando todos os tons do roxo, laranja e
rosa, amargam e desesperam.
Acresce ainda que me veio irritar certo peque-
no atrito burocrático, destes que mostram, sob a
muita deferência exterior, a soberba dos galões,
mal escondida.
Tudo somado, vou partir. E no próprio dia em
que visito as trincheiras, antes de lá chegar, re-
82 Memórias da Grande Guerra
queiro verbalmente ao chefe dos serviços de saú-
de, a minha transferência para as trincheiras. No
dia seguinte, conforme a indicação do chefe, faço
o meu requerimento por escrito. E dois dias de-
pois a ordem dav$-me como transferido, a meu
pedido, para o batalhão de infantaria 23.
Toca a arranjar a mala.
Uf!
ECCE HOMO!...
Novembro de 1917.
Mal cheguei às trincheiras, renasci. Exaltaram-
^™* -se-me subitamente todas as faculdades de
sentir e de viver. Depois o perigo fustiga os ner-
vos. Acaba a gente de escapar à morte, com algu-
ma^ boas chicotadas na medula, trémulo ainda,
e vem-nos uma sede de vida tamanha que alguns
minutos de alegria mais quieta embebedam a alma.
Sinto-me novo, mais forte, e^aior... Tam-
bém é impossível deixar de crescer sobre este
grande chão que pisamos.
Aos poucos entra a gente a compreender este
mundo novo. Agora, volvidos dias, conheço, além
da terra, o homem.
E este, sim, é qualquer coisa de novo para
atentar.
Ao caminhar, da rectaguarda cá para as linhas,
atravessam-se todos os círculos da agonia até pa-
rar nestas planícies da morte. São as aldeias des-
84 Memórias da Grande Guerra
manteladas — casas mortas com as órbitas vazias
e espigões de madeiros fracturados em ruas ce-
miteriais; depois as zonas, onde a artilharia ligeira
se esconde e troveja; agora os campos, eriçados
de arame farpado, panos de paredes corcomidas,
e granadas rebentando; emhm a terra cava-se,
mergulhamos no chão: estamos nas trincheiras.
Aqui a rasoira terrível da metralha apagou as
saliências; o fogo corroeu as coisas vivas; e na
íerra esventrada de rasgões, entre poucas ruinas
v„esmoronadas, os fantasmas das árvores decepa-
das gritam em vão, — mutilados da guerra, sem
hospital.
Um sistema de fossos rasga o chão até à al-
tura dum homem e sucede-se em três linhas para-
lelas, zigzagueando e entreunindo-se até aos para-
peitos sobre a terra de ninguém. Nestes fossos
abriram-se lateralmente algumas cavernas, espé-
cie de silos escuros para vegetar. As granadas, e
a chuva, aqui e ali revolvem, abrem, obstroem,
encharcam em lama e água. Todavia, nesses fos-
sos e cavernas, sujos e viscosos, alguns homens
habitam.
Tudo ali é lodo e miséria. A esperança da vida
assenta apenas sobre o acaso. E a inquietação de-
vora o peito nas horas lentas.
Estes homens, que vivem dum modo nunca
visto, ganharam com o tempo uma fisionomia es-
pecial, tanto mais acusada, quanto mais próximo
do inimigo. Era inevitável. A vizinhança da morte,
EcceHomo!... 85
as vigílias continuadas, os longos alertas de olhos
apunhalando o escuro, à cata dos perigos, as soa-
lheiras, as friagens e as lufadas do tempo acabam
por tatuar e curtir a pele sobre a caveira.
Nas caras duras e atanadas* rasgaram-se- os
grandes sulcos dos sobrolhos e os que vão do na-
riz ao canto da boca;- as comissuras dos lábios
baixaram severamente: e os olhos pararam numa
fixidez ardente de espanto e penetração.
A imobilidade e frescura especial do rosto, que
dão a mocidade e a vida calma, secaram, murcha-
ram inteiramente.
Há crianças com caras de velhos.
A esta transformação dos rostos, corresponde
uma outra mais profunda nas almas.
De ao pé da morte, o olhar, que se deita so-
bre a vida, fixa apenas as coisas essenciais. As
mentiras caem aos farrapos e vê-se emfim a ver-
dade na sua nudez sublime e infame. Há olhos
cá nas trincheiras que, nos fitam e revolvem até
aos últimos escaninhos dejiós mesmos.
Moços de 20 qnos possuem a sabedoria de sé-
culos.
Quando se anda pela primeira linha, surdem,
a espaços, dos buracos do chão, rastejando e er-
guendo-se a custo, ou circulando nos traveses, uns
espectros lamacentos.
Às vezes esses fantasmas mostram os dentes
num riso sinistro e olham com certos olhos im-
placáveis, como quem doutro planeta com mais
86 Memórias da Grande Guerra
aguda vista considerasse as baixezas e os erros
dos humanos.
No seu conjunto esta faxa estreita das trin-
cheiras assemelha-se na hierarquia do risco ao
conjunto do sector. Todos os que habitam fossos
e cavernas vivem ao pé da morte, no meio das
balas e das granadas, que -são cegas.
Mas os oficiais do estado maior do batalhão,
incluindo os médicos e o comandante, são nas
horas mais calmas, os menos expostos aos perigos,
igual sorte, — a de todos os subalternos que os
acompanham. Seguem-se todos os homens dos
comandos de companhia. Chegam na escala má-
xima do risco e da miséria os pelotões, desde o
alferes ao soldado. E leva-se a distinção a pontos
que uma noite certo alferes, ao galgar do talude
para a terra de ninguém, dizia, em despedida iró-
nica, aos companheiros que ficavam na primeira
linha e lhe desejavam bonne chance:
— Adeus, seus básicos. . .
Cada um ostenta sobre o escudo com orgulho
e prosápia fidalga quanto houver de incerteza e
miséria na sua vida. Aqui só a valentia e o po-
der de sacrifício valorizam os homens e aistin-
guem as classes.
Por um sábio acaso vim ter às trincheiras de
Neuve-Chapelle. Em toda a grande linha da ba-
talha poucos sectores haverá de tão pungente e
pitoresco interesse.
Neste lugar se deu em 1915 uma grande batalha.
Ecce Homo!... 87
A pequena cidade daquele nome foi terrivelmente
arrasada e de pé ficaram apenas alguns raríssimos
farrapos de casas, uma coluna de jardim e um
calvário, — um lindo calvário, com o seu Cristo,
ao alto.
Os encontros dos combates abarrotaram os
cemitérios próximos. Não obstante, muitos dos
que caíram por terra, com <j revolver simultâneo
do chão, foram sepultados ao acaso, anónimos,
no lugar onde tombaram e sob o próprio campo
de batalha.
Caiu o fogo do céu, como as antigas cóleras
dos deuses assoladores; a própria terra foi sa-
queada até ao seio; e puro, perfeito, intacto só o
Cristo-ficou. A meio do madeiro cravou-se uma gra-
nada, e essa mesma não teve coragem de explodir.
De quando em quando, sobre o terreno, "um
mosteiro cai, abre um fundão e põe à mostra um
pedaço hediondo de cadáver. Os vivos teem de
viver em promiscuidade com os mortos, — mais
do que isso, com as mutilações dos cadáveres.
Ali, ao pé da trincheira, a meio duma dessas pa-
redes dum poço de explosão, emergem os dois
ossos duma perna com farrapos de podridão sus-
pensos e uma bota ainda calçada.
Às vezes o fedor a carne putrefacta é tão in-
tenso que é necessário mandar tapar; outras o
cheiro nauseabundo erra no ar, vindo não se sabe
donde.
Todo este chão exala carnagem, loucura, ne-
88 Memórias da Grande Guerra
voeiros de morte. Em certos pontos dir-se-ia que
a terra inda está ensopada de sangue negro.
Quando a tarde chega, nestes céus baixos e
brumosos, apagando as formas para só deixar a
nú a desolação imensa das coisas, aquele Cristo
do calvário intacto, erguido no madeiro altíssimo,
dominando toda a scena, ganha uma nova huma-
nidade e assume não sei que proporções de reve-
lação trágica.
Se êle resistiu a quantas ondas destruidoras ni-
velaram o solo é que ali simboliza uma verdade
indestructível.
A tarde cai mais densa. Este chão de batalha,
— meio húmus, meio carne, que sangra e apodrece,
este cemitério vivo, que remexe e sofre. — aumenta
com desmesura, encharcado na mesma escura tris-
teza, e o madeiro subiu, alto, tão alto que já o.
Cristo estende os braços e espalma as mãos san-
grentas para além, sobre toda a terra do martírio
e dos combates.
A tarde cai e afoga as coisas. Só a realidade
terrível deste sofrimento que o chão respira, fica
visível, sobe como uma névoa e ergue até as
estrelas o seu corpo de lágrimas e sangue. Mais
o escuro é denso, mais ela cresce e apaga tudo à
volta. - •
Uma dôr mais alta e próxima de Deus encar-
nou sobre o mundo, dilatando sem fim, para sal-
var os homens, a paixão do Galileu.
E agora, lá em cima, pregado a cravos e aberto
Ecce Homo!... 89
em chagas contra os braços da cruz, que a treva
alongou, vivo ainda e a gotejar aflição, agoniza
um Cristo Maior: — é a turba martirizada, a mul-
tidão dolorosa e redentora, o soldado da grande
guerra.
Na bruma da noite eu próprio perco o ser.
Sofro e gemo a angústia do grande crucificado e
soletro, para além do tempo, as palavras clamo-
rosas do seu evangelho, galgando e redimindo a
terra até aos confins, na boca dos milhões dos
mártires-apóstolos.
TRÊS DIAS, COMO TANTOS
5 de Novembro.
í— Joje fui almoçar com o Poeta Augusto Casi-
1 A miro mais outros oficiais ao seu abrigo de
companhia. Com o seu grande ar de veterano, já
me levou à primeira linha, mostrando e instruindo.
Como, todavia, as primeiras voltas não foram
por demais emocionantes, hoje depois do almoço
volta a guiar-me aos seus estados.
Augusto Casimiro comanda a 3. a companhia
do batalhão, que êle próprio baptisou de Quixote
Company. Descendo a trincheira, atraz dele, cur-
vado (sér alto acarreta alguns desgostos nestas
paragens) percebo nas suas palavras que vai se-
cretamente resolvido a oferecer-me algumas fortes
emoções. Oh! a malícia das trincheiras...
E, a caminho vou dizendo, com os meus bo-
tões, que um comandante, que tão sugestivo epí-
teto escolheu, não é dos guias mais cautos para
viagens melindrosas.
Três dias, como tantos 91
Correndo a primeira linha, chama dum grupo
de homens um deles. É o sargento Conde. Um
moço baixo coin dois olhos firmes e ardentes nu-
ma face pálida. O sargento parou perfilado. E êle
aponta-mo em palavras graves e comovidas, como
um dos -homens mais bravos e cumpridores da
sua companhia. Por isso mo apresenta. Aperto-lhe
a mão com alegria.
Seguimos. A cada passo pára falando aos sol-
dados; toma-lhes das espingardas; examina-as.
Repreende ou louva. Em certo ponto mostra-me
um boche do lado de lá. "Espreito a medo e lo-
brigo também. A medo, amigos, que as balas
assobiam apontadas às cabeças indiscretas. Ago-
ra toma duma espingarda e aponta contra um
boche.
E mais adiante dá as suas ordens à guarnição
dum morteiro para atirar alguns projécteis.
Damos uns passos à frente, à procura de sítio
asado para vêr o espetáculo, e o meu amável guia
convida-me a trepar um pouco ao. parapeito. Os
morteiros caem de lá, pan... pan... e erguem gey-
sers de terra para o ar. Vêem-se tão bem daquele
ponto que o meu companheiro, encantado, puxa
dum Kodac de algibeira e começa a fotografar as
explosões.
Eu olho o grande Cristo, que num pequeno
alto à nossa direita e a bôa distância mostra o
perfil puríssimo.
Nisto um silvo galopante vem "de lá, rasa
92 Memórias da Grande Guerra
numa lufada horrível as nossas cabeças; um es-
tampido cataclísmico; a terra, os sacos, a madeira,
nós mesmos, tudo dança, projectado; depois uma
chuva de pedras, torrões, detritos, cai do alto, bate
no capacete, fustiga a carne, graniza à volta, com
violência.
— Fomos descobertos. Toca a fugir — bra-
da-me rapidamente o meu guia, dando-me tão
pronto exemplo que ainda lhe ouço as palavras e
já êle desaparece ao longe.
Mas os silvos e os ribombos multiplicam-se e
quando alguma rajada vem de lá mais furiosa e
desabalada, à minha frente comandam:
— Atira-te ao chão! . . .
Atiramo-nos, rolamos na lama, emquanto o tem-
pestuoso corpo passa rasgando o ar, que ruge
agudamente com a dor, e os estilhaços voam cor-
tadores e o chão pula e reflui com estremeções
vulcânicos.
Já dura aquilo há minutos.
Por fim, ofegando, corro de cabeça alta no
meio da tempestade, entre as explosões espanto-
sas que fogacham incêndios sobre o chão e o es-
padanar convulso das coisas arremessadas. .
Chegados a um ponto relativamente seguro,
paramos": De longe vemos e ouvimos ainda as ex-
plosões. Eu tenho o coração a saltar-me da boca.
Sufoco com a violência do esforço. Então o meu
cicerone, que já tem mais treino, desata a rir a
bandeiras despregadas dum riso que os nervos
Três dias, como tantos 93
excitados sacodem mais. A sua ordenança que nos
seguiu sempre, ri também. E eu, para não fazer
má figura, rio igualmente.
A esta operação de fugir escondendo-se e tram-
bulhando, — que os mais bravos praticam sempre
que o dever não exige o contrário — chama-se ca-
var. Saber cavar não se aprende às primeiras,
todavia eu levei uma bôa ensaboadela.
Rio então com vontade, quando acaso olhando
o Cristo, o vejo ainda de perfil, mas desta vez à
nossa esquerda.
É que os senhores não imaginam a maratona
velocíssima que isto representa nestas longas trin-
cheiras aos zig-zags.
Olhando a manga do meu casaco, negra de
pólvora e queimada dum estilhaço, o meu compa-
nheiro confessa que este foi dos mais violentos
bombardeamentos que o teem colhido e conclui,
rindo sempre, que, no seu imaginado programa,
não figuravam números de tamanho êxito.