dimecres, 25 de març del 2015

Portwine! exclama êle, num arroubo. E ao depois fita olhos de êxtase no copo de água que encheu de vinho, e, rápido, vai esvaziando. Tro- cam-se brindes misteriosos, pois as falas se não entendem. Os olhos dele estão duma ternura ado- rável. Por muito tempo quere dizer-me qualquer coisa. São esforços inauditos. Aponta-me o rosto, o cabelo, a barba. Articula sons incompreensíveis. Até que, achando a palavra, arranca, numa voz de eureka: «Homme de lettres...-* Nisto, pânico na sala. A artilharia anti-aérea dispara lá fora, denunciando a chegada dos aeroPLANOS Caí num pântano! Primeiro atiraram comigo para o Quartel General da 2. a Divisão. Aí, ern úl- tima análise decidiram do meu destino. Lá fui. Está o Comando instalado em Roquetoire, num pitoresco chateau, ao qual se vai por uma longa rua, ladeada de altos choupos, pertença "dum mar- quez de qualquer coisa, agora, ao que me dizem, fazendo também a guerra para as bandas de Sa- lónica. Lá passo dois dias e uma noite até que, dado momento, um chefe de viseira sombria e modos bruscos, analisando certo mapa, resolve em seu alto juizo enviar-me para a ambulância 8. Como adrega ser comandante da ambulância o major Alves Ferreira, o Hélder Ribeiro, seu pa- rente, leva-me lá de automóvel, para fazer a apre- sentação. Este Hélder é o primeiro dentre os altos .agaloados, conhecidos e desconhecidos, em quem vejo modos humanos. Quanto aos outros, pare- cem todos profundamente ocupados com as con- geminências da guerra. . A ambulância 8? O que. será? Não julguem os senhores que a gente imagina daí a realidade complexa desta guerra. Mesmo, chegados cá, isso leva seu tempo. Uma ambulância, por exemplo, é coisa extremamente variável, quanto ao género de trabalho, a perigos e fadigas, conforme está na frente ou na rectaguarda. Esta começa a instalar-se Baptismo de Fogo 71 em Dohem a 45 quilómetros das linhas, o sufi- ciente para se cair numa horrível pasmaceira. Assenta Dohem numa pequena elevação, a meio da imensa planície flandrina; rodeia-se de pequenos bosques; e espalha por um pequeno tra- çado de ruas algumas dúzias de casas, quási todas de^mediano conforto. Terra burguesa, católica até ao beatério, com um grande colégio de educação acentuadamente religiosa para o sexo feminino, muitos padres e irmãs professas, e até famílias mo- nárquicas- que atribuem à República os desastres da guerra, pelas deficiências do exército. Aqui se leva apenas a vida da aldeia, com algum passeio, a missa ao domingo e um paisa- nismo, que certas» preocupações militares tornam mais soma e ridículo. Bons e alegres camaradas quási todos . . . mas esta monotonia envenena. Só um ou outro consegue furtar-se-lhe derivando às aventuras amorosas. Como a terra oferece certas ensanchas de aco- modação, instalou-se aqui uma. outra ambulância, a 9. Quando a convivência começa a aquecer e a gente a aclimatar-se, por meados do mês, volvi- dos poucos dias sobre a minha chegada, lá tenho de seguir para a ambulância 7, em Ecques, a subs- tituir um colega, que foi de licença a Portugal. A terra é diferente. Aqui a planície tem menos ondulações. A aldeia, em si, pouco interessa: um ou outro chateau, as fermes e os estamineis do 72 Memórias da Grande Guerra costume, com a sua horrível cerveja e as suas hor- ríveis colecções de postais. De dia, findo o traba- lho médico, escreve-se e passeia-se, e à noite va- mos para os pontos mais altos vêr os lumes do front. E, como Ecques está um pouco menos à rectaguarda, vêem-se melhor na linha do horizon- te, relampagueando e pontiluzindo, os clarões da artilharia detonando, os fogachos lentos dos very- lights, e até as luzes dos aeroplanos. A certas ho- ras, quando o horizonte crepita, vem de lá um vago marulho, como aquele que tem as bravezas do Mar a longa distância. Como amostra de guerra, é pouco. Assim, a vida marasma. Estiolam as flores mais altas do espírito. Só uma vinga, esplendorosa: — a saudade, pois que toda a actividade refluiu ao íntimo e se concentra num laborar evocativo. Daí, a duas horas apenas, se vence o grande torpor; são as do correio, — a hora ansiosa em que che- gam as cartas e a outra de carinho em que se es- crevem. Vêem-se então vultos parados, de mão e pena poisada no papel e os olhos erráticos, cheios de névoa, focando ao longe espectros de graça ou paisagens idílicas que a memória exala. E toda esta gente sonha. Sonhar é o grande refúgio. Transpuseram a realidade e ei-los galo- pando sobre o mundo. O sonho é a lança d'Atila. Estes homens pálidos conquistaram a terra, abo- liram o espaço e agora ardem na eternidade viva das forças profundas. Às horas da tarde, quando 1 ¥VkV l. a Linha. Centro de Neuve-Chapelle. \\fmõria? da Grande Gierra, Baptismo de Fogo 73 as almas extravasam e imperiosamente querem comunicar, vêem-se os desterrados, a dois e dois, confidenciando em voz- baixa as suas esperanças e amarguras. Dizem que no deserto os viajantes, queima- dos da sede, se acontece adormecerem, sonham com a frescura gorgolejante das fontes. Ê vê-los: teem brasas nos olhos. E vai um ê diz: «Quando eu fôr, hei de passar tantos dias na Serra.» E outro: — «Já e-ntão o meu pequeno há de correr.» E aquele: «Irei com Ela para a beira do Mar.» As cartas então assumem por vezes o tom das éclogas. Um dia destes, censurando as cartas dos soldados, encontrei isto: «Mãe. Afinal fez bem vendendo a nossa cabrinha, se precisava de co- mer. Eu bem sei o que lhe devo como filho e não me zango. Mas tenho muita pena, isso tenho. E às vezes ponho-me a lembrar que quando aí fôr já ela não vem da horta, entrando em casa, para me co- mer à mão. A gente também ganha amizade aos animais. Mas não me zango, pois se era precisão...» Outros enviam versos, recomendam cuidados: «Olha o nosso filho... Trata de ti...» E assim a vida corre. O tempo e uma oração. As horas passam entre os dedos, como as contas dum rosário, na visão da divindade longínqua. E toda a vida profunda é um acto de saudade. Ora, aqui há dias, eu compreendi melhor esta palavra. Tive o primeiro encontro com os nossos mortos. 74 Memórias da Grande Guerra Por estas aldeias os cemitérios, por via de re- gra, confinam ou cercam as igrejas. Estas são quási sempre templos, pitorescos, construções no- vas, arremedando o gótico, cada uma com seu gracioso pormenor, — portada, vitral, painel e, á rematar, a torre esbelta de flexa alta. Fui visitar a da terra. Tinha-lhe feito o giro, no exame dos seus sumários encantos, quando meti ao pequeno cemitério a iêr os epitáfios. Vou de rua em rua, no silêncio desolado $&s lágeas e das cruzes. De longe atrái-me a vista dalgumas campas térreas, mais bem tratadas entre as outras. AprQximei-me. Estavam ali sepultados três soldados portugueses. A terra fresca ainda. À volta de cada coval uma ingénua cercadura de vergas entrelaçadas. Por ci- ma molhos de flores. À cabeceira de cada um er- guia-se uma cruz, em cujos braços havia o nome do soldado, e por cima escrito apenas: — Saudade. Ali, na terra estrangeira, naquele desvão do mundo, onde eles iam ficar, breve, ao descaso de toda a gente, aquela palavra, — erguida sôbte as três campas dentre as oferendas com que as mãos rudes imaginaram o geito das mães ou das noi- vas, — ganhou de súbito um sentido novo e tão fun- do que uma dôr aguda me cortou o peito e os olhos se me encheram de água. Era um novo baptismo de fogo. . . OS SETE CÍRCULOS DA GUERRA Outubro de 1917. Mouco a pouco, relacionamos a guerra com o ■^ espaço. É um trabalho lento: demanda estudo. Como já fiz algumas viagens, ouvi e indaguei, compreendo agora. Ainda não fui à base, à base propriamente dita, no país das delícias, à beira- mar, mas ouço falar; e porque fiz também, há dois dias, a 20, uma pequena excursão às trin- cheiras, ligados os vários ensinamentos, possuo agora uma idea, de conjunto. Ocupamos aqui uma parte da Flandres fran- cesa (servindo-nos da velha designação regional) que, em paisagem, caracteres do solo, condições de vida e até em costumes e património artístico, prolonga para ocidente as Flandres belgas — o núcleo mais rico e pitoresco da região tipo, des- dobrada ainda a oriente sobre o sul da Holanda. A terra é planturosa e feracíssima, para mais banhada dum sistema de rios e canais, largamente 76 Memórias da Grande Guerra ánastomosados, e sobejo praticável não só pelos cursos de água mas também pela rede profusa das estradas e vias férreas. A configuração do terreno, alongando-se em planície intérmina, apenas ligei- ramente montuoso, a sudeste, no Artois das flo- restas, favorece excepcionalmente essa riqueza de irrigação e itinerários. País de clima áspero e brusco, comum às zo- nas do norte, e húmido das planícies muito ba- nhadas, de inverno longo, e primavera súbita, en- charcado em chuvas e nevoeiros ou fustigado pe- las nevadas e os granizos, muitas vezes Abril ne- va-lhe ainda, mas logo em Maio desabrocha e palpita numa festa de verdura, de tão repentina exuberância, que tem seu geito de milagre. Por aí fora choupos, muitos choupos, o que traz à memória a doçura virgiliana dos nossos campos. Vida intensamente agrícola, a que faltam to- davia dois produtos essenciais ao português: — o vinho e o azeite, e em que o cavalo normando, alto e pesado, substitui o boi no auxílio do ho- mem. A esta vida, clima e terra corresponde um tipo de habitação, — a ferme, casa de lavoura, ge- ralmente enquadrando ao meio um páteo com fosso de estrumeira e distribuindo nos quatro, lan- ços de construção, a vivenda, o celeiro, o curral, o telheiro, o palheiro, coroando-se dum telhado colmado de empena altíssima, debordando o frei- Os Sete Círculos da Guerra 77 xal num pequeno alpendre, o que presta declive à neve, resguardo ao frio, e ao edifício dá um ar primitivo e gracioso de cabana. Este é o grande modelo de habitação aldeã na Flandres, variando largamente, té derivar ao tipo fruste do tugúrio, a que faltam dois ou três lanços, ou atingir no extremo oposto proporções de resi- dência solarenga para os donos dos latifúndios. Casa burguesa, que, nas vilórias, alteie andares, cerque um jardim e haja conforto logo se enfeita com o nome de chateau. E aqui e além, muito de longe em longe, nal- gum recanto de pature e sobre o teso das colinas, ergue-se um destes moinhos altos de grandes bra- ços, tão vulgares em gravura holandesa, que as- sentam sobre um eixo e alongam em cauda uma ^espécie de leme com que navegam no curso dos ventos. Nas cidades de maior vulto, nessas então, há sempre, e ao menos, o beffroi, torre antiga de. alarme, recordando os velhos tempos e dando a mancha própria e original. O habitante das aldeias é. trabalhador, sóbrio e económico, viciando por vezes este último virtuo- so atributo com o defeito a que êle pode con- duzir. Poucos homens por aqui ficaram. Levou-os a guerra. E os que restam, altos e loiros, quando pela manhã abalam, cavalgando de lado os seus cavalos toscos, atrelados a qualquer ferralha agrí- 78 Memórias da Grande Guerra cola, alevantam assim sobre esta Flandres o sím- bolo áspero da sua força e uberdade. Eis a região onde viemos parar. Estende-se a gente portuguesa por uma facha do país mais ou menos limitável dentro dum gran- de triângulo isósceles. O vértice, que entesta com a nossa linha de batalha, longa de alguns quiló- metros (12 com a entrada da 2. a divisão), medeia entre Armentières, ao norte e Bethune, ao sul; e a base, larga de 60 quilómetros, é a própria costa marítima, banhada do Mar da Mancha. Fecham- -no duas linhas que, do vértice vão terminar, uma em Calais, ao norte, outra em Etaples, ao sul. A perpendicular baixada do vértice sobre a. base de este triângulo mede 90 quilómetros. As nossas tropas distribuem-se por aí fora desde as trinchei- ras às praias e cidades marítimas, passando por^ todas as gradações possíveis que vão da vida troglodítica, ameaçada do termo a cada hora, à exis- tência regalada dum janota a banhos.

aqui por acaso em época terrível dum ano excep- 
cional, sofreram as agruras dum inverno serôdio. 
Estranharam. Retraíram-se. Breve com a sua grande 
facilidade de adaptação sentiram-se em país con- 
quistado. Como na sua grande maioria vieram das 
ocupações agrícolas, não é raro vê-los pelos campos, 
misturados com o indígena, trabalhando a terra. 

Facilmente aprenderam também da língua o 
indispensável para se fazerem entender. Além de 
que a guerra criou ^nestas paragens* uma espécie 
de argot internacional, de reduzidos termos para 
as coisas urgentes da vida, aconteceu que eles vie- 
ram encontrar no patois, a língua popular da re- 
gião, vestígios directos das línguas peninsulares» 
aqui deixados pelos dois povos respectivos, a 
quando as guerras da Flandres. É assim que mui- 
tas palavras do patois se assemelham grandemente 
às suas correspondentes em português: capeie, ca- 
pela, vaque, vaca, chope, copo, caíere, cadeira, 
frou, frio, etc. 

Todavia ocasiões há em que o português, por 
demais sabido em muitos mistérios da língua 
grandemente afecta desconhecê-los. Dum caso sei 
eu, que ouvi fortuitamente na conversa de dois 
soldados. 

Um deles contava ceita aventura que houvera 
com uma rapariga francesa, a qual, em dado 
ponto o sacudira com palavras desabridas, ao 
que êle, teimando, respondia, feito parvo: — Non 
compris !  
 O outro, que ouvia calado, comentou: — «Sim, 
sim. Curto precisavas tu que te pusessem.» 

Eis, a traços largos, o scenário e os actores. A 
acção, toda a acção epo-cómica, ninguém terá a 
coragem de a contar por inteiíp. Há conveniências 
a respeitar. Eu proponho-me dizer o mais que se- 
ja possível da verdade e, como este ponto de ob- 
servação é mau, vou mudar-me. 

Voltei de novo a Dohem, a 8. Aqui sufoca-se. 
Esta vida, triste e monótona, longe de toda a emo- 
ção profunda que não seja a lembrança dos que 
estão longe, enche deste mal terrível e tedien- 
to, destruidor da vontade a que aqui se chama 
neura. 

Ora eu vim para a guerra; não foi para isto. 
Durante muito tempo se afirmou que a ambu- 
lância ia seguir para a frente. Mas o tempo passa 
e à ambulância fica. # 

Depois o outono caminha. O vento, o frio e a 
chuva chegam. As brumas do tempo pesam tam- 
bém na alma. E dos altos da pequena aldeia, os 
poentes da Flandres, duma finura sutílima de tin- 
tas, cambiando todos os tons do roxo, laranja e 
rosa, amargam e desesperam. 

Acresce ainda que me veio irritar certo peque- 
no atrito burocrático, destes que mostram, sob a 
muita deferência exterior, a soberba dos galões, 
mal escondida. 

Tudo somado, vou partir. E no próprio dia em 
que visito as trincheiras, antes de lá chegar, re- 



82 Memórias da Grande Guerra 

queiro verbalmente ao chefe dos serviços de saú- 
de, a minha transferência para as trincheiras. No 
dia seguinte, conforme a indicação do chefe, faço 
o meu requerimento por escrito. E dois dias de- 
pois a ordem dav$-me como transferido, a meu 
pedido, para o batalhão de infantaria 23. 

Toca a arranjar a mala. 

Uf! 



ECCE HOMO!... 



Novembro de 1917. 

Mal cheguei às trincheiras, renasci. Exaltaram- 
^™* -se-me subitamente todas as faculdades de 
sentir e de viver. Depois o perigo fustiga os ner- 
vos. Acaba a gente de escapar à morte, com algu- 
ma^ boas chicotadas na medula, trémulo ainda, 
e vem-nos uma sede de vida tamanha que alguns 
minutos de alegria mais quieta embebedam a alma. 

Sinto-me novo, mais forte, e^aior... Tam- 
bém é impossível deixar de crescer sobre este 
grande chão que pisamos. 

Aos poucos entra a gente a compreender este 
mundo novo. Agora, volvidos dias, conheço, além 
da terra, o homem. 

E este, sim, é qualquer coisa de novo para 
atentar. 

Ao caminhar, da rectaguarda cá para as linhas, 
atravessam-se todos os círculos da agonia até pa- 
rar nestas planícies da morte. São as aldeias des- 



84 Memórias da Grande Guerra 

manteladas — casas mortas com as órbitas vazias 
e espigões de madeiros fracturados em ruas ce- 
miteriais; depois as zonas, onde a artilharia ligeira 
se esconde e troveja; agora os campos, eriçados 
de arame farpado, panos de paredes corcomidas, 
e granadas rebentando; emhm a terra cava-se, 
mergulhamos no chão: estamos nas trincheiras. 

Aqui a rasoira terrível da metralha apagou as 
saliências; o fogo corroeu as coisas vivas; e na 
íerra esventrada de rasgões, entre poucas ruinas 
v„esmoronadas, os fantasmas das árvores decepa- 
das gritam em vão, — mutilados da guerra, sem 
hospital. 

Um sistema de fossos rasga o chão até à al- 
tura dum homem e sucede-se em três linhas para- 
lelas, zigzagueando e entreunindo-se até aos para- 
peitos sobre a terra de ninguém. Nestes fossos 
abriram-se lateralmente algumas cavernas, espé- 
cie de silos escuros para vegetar. As granadas, e 
a chuva, aqui e ali revolvem, abrem, obstroem, 
encharcam em lama e água. Todavia, nesses fos- 
sos e cavernas, sujos e viscosos, alguns homens 
habitam. 

Tudo ali é lodo e miséria. A esperança da vida 
assenta apenas sobre o acaso. E a inquietação de- 
vora o peito nas horas lentas. 

Estes homens, que vivem dum modo nunca 
visto, ganharam com o tempo uma fisionomia es- 
pecial, tanto mais acusada, quanto mais próximo 
do inimigo. Era inevitável. A vizinhança da morte, 



EcceHomo!... 85 

as vigílias continuadas, os longos alertas de olhos 
apunhalando o escuro, à cata dos perigos, as soa- 
lheiras, as friagens e as lufadas do tempo acabam 
por tatuar e curtir a pele sobre a caveira. 

Nas caras duras e atanadas* rasgaram-se- os 
grandes sulcos dos sobrolhos e os que vão do na- 
riz ao canto da boca;- as comissuras dos lábios 
baixaram severamente: e os olhos pararam numa 
fixidez ardente de espanto e penetração. 

A imobilidade e frescura especial do rosto, que 
dão a mocidade e a vida calma, secaram, murcha- 
ram inteiramente. 

Há crianças com caras de velhos. 

A esta transformação dos rostos, corresponde 
uma outra mais profunda nas almas. 

De ao pé da morte, o olhar, que se deita so- 
bre a vida, fixa apenas as coisas essenciais. As 
mentiras caem aos farrapos e vê-se emfim a ver- 
dade na sua nudez sublime e infame. Há olhos 
cá nas trincheiras que, nos fitam e revolvem até 
aos últimos escaninhos dejiós mesmos. 

Moços de 20 qnos possuem a sabedoria de sé- 
culos. 

Quando se anda pela primeira linha, surdem, 
a espaços, dos buracos do chão, rastejando e er- 
guendo-se a custo, ou circulando nos traveses, uns 
espectros lamacentos. 

Às vezes esses fantasmas mostram os dentes 
num riso sinistro e olham com certos olhos im- 
placáveis, como quem doutro planeta com mais 



86 Memórias da Grande Guerra 

aguda vista considerasse as baixezas e os erros 
dos humanos. 

No seu conjunto esta faxa estreita das trin- 
cheiras assemelha-se na hierarquia do risco ao 
conjunto do sector. Todos os que habitam fossos 
e cavernas vivem ao pé da morte, no meio das 
balas e das granadas, que -são cegas. 

Mas os oficiais do estado maior do batalhão, 
incluindo os médicos e o comandante, são nas 
horas mais calmas, os menos expostos aos perigos, 
igual sorte, — a de todos os subalternos que os 
acompanham. Seguem-se todos os homens dos 
comandos de companhia. Chegam na escala má- 
xima do risco e da miséria os pelotões, desde o 
alferes ao soldado. E leva-se a distinção a pontos 
que uma noite certo alferes, ao galgar do talude 
para a terra de ninguém, dizia, em despedida iró- 
nica, aos companheiros que ficavam na primeira 
linha e lhe desejavam bonne chance: 

— Adeus, seus básicos. . . 

Cada um ostenta sobre o escudo com orgulho 
e prosápia fidalga quanto houver de incerteza e 
miséria na sua vida. Aqui só a valentia e o po- 
der de sacrifício valorizam os homens e aistin- 
guem as classes. 

Por um sábio acaso vim ter às trincheiras de 
Neuve-Chapelle. Em toda a grande linha da ba- 
talha poucos sectores haverá de tão pungente e 
pitoresco interesse. 

Neste lugar se deu em 1915 uma grande batalha. 



Ecce Homo!... 87 

A pequena cidade daquele nome foi terrivelmente 
arrasada e de pé ficaram apenas alguns raríssimos 
farrapos de casas, uma coluna de jardim e um 
calvário, — um lindo calvário, com o seu Cristo, 
ao alto. 

Os encontros dos combates abarrotaram os 
cemitérios próximos. Não obstante, muitos dos 
que caíram por terra, com <j revolver simultâneo 
do chão, foram sepultados ao acaso, anónimos, 
no lugar onde tombaram e sob o próprio campo 
de batalha. 

Caiu o fogo do céu, como as antigas cóleras 
dos deuses assoladores; a própria terra foi sa- 
queada até ao seio; e puro, perfeito, intacto só o 
Cristo-ficou. A meio do madeiro cravou-se uma gra- 
nada, e essa mesma não teve coragem de explodir. 

De quando em quando, sobre o terreno, "um 
mosteiro cai, abre um fundão e põe à mostra um 
pedaço hediondo de cadáver. Os vivos teem de 
viver em promiscuidade com os mortos, — mais 
do que isso, com as mutilações dos cadáveres. 
Ali, ao pé da trincheira, a meio duma dessas pa- 
redes dum poço de explosão, emergem os dois 
ossos duma perna com farrapos de podridão sus- 
pensos e uma bota ainda calçada. 

Às vezes o fedor a carne putrefacta é tão in- 
tenso que é necessário mandar tapar; outras o 
cheiro nauseabundo erra no ar, vindo não se sabe 
donde. 

Todo este chão exala carnagem, loucura, ne- 



88 Memórias da Grande Guerra 

voeiros de morte. Em certos pontos dir-se-ia que 
a terra inda está ensopada de sangue negro. 

Quando a tarde chega, nestes céus baixos e 
brumosos, apagando as formas para só deixar a 
nú a desolação imensa das coisas, aquele Cristo 
do calvário intacto, erguido no madeiro altíssimo, 
dominando toda a scena, ganha uma nova huma- 
nidade e assume não sei que proporções de reve- 
lação trágica. 

Se êle resistiu a quantas ondas destruidoras ni- 
velaram o solo é que ali simboliza uma verdade 
indestructível. 

A tarde cai mais densa. Este chão de batalha, 
— meio húmus, meio carne, que sangra e apodrece, 
este cemitério vivo, que remexe e sofre. — aumenta 
com desmesura, encharcado na mesma escura tris- 
teza, e o madeiro subiu, alto, tão alto que já o. 
Cristo estende os braços e espalma as mãos san- 
grentas para além, sobre toda a terra do martírio 
e dos combates. 

A tarde cai e afoga as coisas. Só a realidade 
terrível deste sofrimento que o chão respira, fica 
visível, sobe como uma névoa e ergue até as 
estrelas o seu corpo de lágrimas e sangue. Mais 
o escuro é denso, mais ela cresce e apaga tudo à 
volta. - • 

Uma dôr mais alta e próxima de Deus encar- 
nou sobre o mundo, dilatando sem fim, para sal- 
var os homens, a paixão do Galileu. 

E agora, lá em cima, pregado a cravos e aberto 



Ecce Homo!... 89 

em chagas contra os braços da cruz, que a treva 
alongou, vivo ainda e a gotejar aflição, agoniza 
um Cristo Maior: — é a turba martirizada, a mul- 
tidão dolorosa e redentora, o soldado da grande 
guerra. 

Na bruma da noite eu próprio perco o ser. 
Sofro e gemo a angústia do grande crucificado e 
soletro, para além do tempo, as palavras clamo- 
rosas do seu evangelho, galgando e redimindo a 
terra até aos confins, na boca dos milhões dos 
mártires-apóstolos. 



TRÊS DIAS, COMO TANTOS 



5 de Novembro. 

í— Joje fui almoçar com o Poeta Augusto Casi- 
1 A miro mais outros oficiais ao seu abrigo de 
companhia. Com o seu grande ar de veterano, já 
me levou à primeira linha, mostrando e instruindo. 

Como, todavia, as primeiras voltas não foram 
por demais emocionantes, hoje depois do almoço 
volta a guiar-me aos seus estados. 

Augusto Casimiro comanda a 3. a companhia 
do batalhão, que êle próprio baptisou de Quixote 
Company. Descendo a trincheira, atraz dele, cur- 
vado (sér alto acarreta alguns desgostos nestas 
paragens) percebo nas suas palavras que vai se- 
cretamente resolvido a oferecer-me algumas fortes 
emoções. Oh! a malícia das trincheiras... 

E, a caminho vou dizendo, com os meus bo- 
tões, que um comandante, que tão sugestivo epí- 
teto escolheu, não é dos guias mais cautos para 
viagens melindrosas. 



Três dias, como tantos 91 

Correndo a primeira linha, chama dum grupo 
de homens um deles. É o sargento Conde. Um 
moço baixo coin dois olhos firmes e ardentes nu- 
ma face pálida. O sargento parou perfilado. E êle 
aponta-mo em palavras graves e comovidas, como 
um dos -homens mais bravos e cumpridores da 
sua companhia. Por isso mo apresenta. Aperto-lhe 
a mão com alegria. 

Seguimos. A cada passo pára falando aos sol- 
dados; toma-lhes das espingardas; examina-as. 
Repreende ou louva. Em certo ponto mostra-me 
um boche do lado de lá. "Espreito a medo e lo- 
brigo também. A medo, amigos, que as balas 
assobiam apontadas às cabeças indiscretas. Ago- 
ra toma duma espingarda e aponta contra um 
boche. 

E mais adiante dá as suas ordens à guarnição 
dum morteiro para atirar alguns projécteis. 

Damos uns passos à frente, à procura de sítio 
asado para vêr o espetáculo, e o meu amável guia 
convida-me a trepar um pouco ao. parapeito. Os 
morteiros caem de lá, pan... pan... e erguem gey- 
sers de terra para o ar. Vêem-se tão bem daquele 
ponto que o meu companheiro, encantado, puxa 
dum Kodac de algibeira e começa a fotografar as 
explosões. 

Eu olho o grande Cristo, que num pequeno 
alto à nossa direita e a bôa distância mostra o 
perfil puríssimo. 

Nisto um silvo galopante vem "de lá, rasa 



92 Memórias da Grande Guerra 

numa lufada horrível as nossas cabeças; um es- 
tampido cataclísmico; a terra, os sacos, a madeira, 
nós mesmos, tudo dança, projectado; depois uma 
chuva de pedras, torrões, detritos, cai do alto, bate 
no capacete, fustiga a carne, graniza à volta, com 
violência. 

— Fomos descobertos. Toca a fugir — bra- 
da-me rapidamente o meu guia, dando-me tão 
pronto exemplo que ainda lhe ouço as palavras e 
já êle desaparece ao longe. 

Mas os silvos e os ribombos multiplicam-se e 
quando alguma rajada vem de lá mais furiosa e 
desabalada, à minha frente comandam: 

— Atira-te ao chão! . . . 

Atiramo-nos, rolamos na lama, emquanto o tem- 
pestuoso corpo passa rasgando o ar, que ruge 
agudamente com a dor, e os estilhaços voam cor- 
tadores e o chão pula e reflui com estremeções 
vulcânicos. 

Já dura aquilo há minutos. 

Por fim, ofegando, corro de cabeça alta no 
meio da tempestade, entre as explosões espanto- 
sas que fogacham incêndios sobre o chão e o es- 
padanar convulso das coisas arremessadas. . 

Chegados a um ponto relativamente seguro, 
paramos": De longe vemos e ouvimos ainda as ex- 
plosões. Eu tenho o coração a saltar-me da boca. 
Sufoco com a violência do esforço. Então o meu 
cicerone, que já tem mais treino, desata a rir a 
bandeiras despregadas dum riso que os nervos 



Três dias, como tantos 93 

excitados sacodem mais. A sua ordenança que nos 
seguiu sempre, ri também. E eu, para não fazer 
má figura, rio igualmente. 

A esta operação de fugir escondendo-se e tram- 
bulhando, — que os mais bravos praticam sempre 
que o dever não exige o contrário — chama-se ca- 
var. Saber cavar não se aprende às primeiras, 
todavia eu levei uma bôa ensaboadela. 

Rio então com vontade, quando acaso olhando 
o Cristo, o vejo ainda de perfil, mas desta vez à 
nossa esquerda. 

É que os senhores não imaginam a maratona 
velocíssima que isto representa nestas longas trin- 
cheiras aos zig-zags. 

Olhando a manga do meu casaco, negra de 
pólvora e queimada dum estilhaço, o meu compa- 
nheiro confessa que este foi dos mais violentos 
bombardeamentos que o teem colhido e conclui, 
rindo sempre, que, no seu imaginado programa, 
não figuravam números de tamanho êxito.