Vamos continuando a galeria dos
nossos typos nacionaes. Mas aqui temos de accrescentar,
a esta designação
geral, alguma qualificação, que possa distinguir
o typo que intentamos descrever.
Porque o editor de cadernetas é sempre
traductor de romances, e o traductor de
romances, salvas as excepções tão honrosas como raras,
se é nacional pela pátria, nacional pela semsaboria, e nacional
por se declarar victima, e fazer victimas
os outros, é estrangeiro pelo officio, estrangeiro pela lingua,
e estrangeiro completamente á litteratura do paiz.
Antigamente o ser traductor era uma
punição, que as lettras infligiam aos litte-
ratos, em proveito do paiz, que se locu-
pletava com as obras primas das littera-
turas estranhas. Hoje é uma sinecura de
ociosos. Antigamente traduzia-se para dar
alguma obra celebre aos leitores ignoran-
tes dos idiomas estrangeiros. Hoje tra-
duz-se para tornar um romance inintel-
ligivel ás mais innocentes capacidades.
N'outro tempo dava-se leitura. Hoje pe-
de-se dinheiro. N'outro tempo o tradu-
ctor suava para traduzir, hoje afoga-se
para fazer cadernetas. A caderneta! que
invenção sublime! que achado feliz do
século XIX ! A caderneta é a leitura po-
pular, por excellencia. N'um século que
chegou a proscrever as mechas, e a levar
À barateza prodigiosa os palitos phosphoricos;
n'um século em que a fortuna se
popularisou, e a sorte se fez plebeia, na
abençoada cautelinha de vinte e cinco;
n'um século em que tudo se reparte,
excepto. a justiça, e em que o thesouro
inventa as quinzenas, e a administração
os meios-bois — o livro grosso, o calha-
maço, o bacamarte infolio, transformou-
se também, dividiu-se em cadernetas, vo-
luminho portátil, em que o assignante
compra, por nada, um braçado de galli-
cismos, e uma folha de papel mata-borrão.
A caderneta foi o ultimo esforço da eco-
nomia politica e da litteratura, a invenção
admirável de traductor de romances.
Mas antes de haver cadernetas havia
traductores. É verdade. Mas só depois
das cadernetas é que se inventaram os
prospectos, os annuncios em versaletes,
os prémios aos assignantes, as rifas, as
loterias, e esta bagagem immensa que
fez de cada traductor um verdadeiro ini-
migo publico. Eu lembro-me de ver em
papel amarellado e transparente, em typo
garrafal, e em formato modesto, as ran-
çosas inspirações da Cabana
do Sitio da Rochella, e do Armando (*) e
Oscar, Mas que diíFerença entre esses
tempos e os de agora! Que distancia
infinita entre o traductor antigo e o tra~
duzidor moderno! O traductor antigo
era as mais das vezes um homem ho-
nesto, algum mestre-escola aposentado,
algum empregado que ia desfructando a
sua jubilação, homem que um bello dia
punha na Gabela: — sairam á luz os T)es-
terrados da Sibéria. Toda a gente se espan-
tava com o annuncio, enchia-se de curio-
sidade, e ia ver quem eram aquelles
desterrados, a quem o traductor, auxiliado
pela gazeta, tinha quebrado o exilio ou
os ferros, nas regiões da Scythia. N'isto
não havia nada de sobrehumano, nem
de extraordinário. O traductor dizia:
— aqui tendes uma novella, e dae cá o
vosso dinheiro. Era um contracto sim-
ples e leal. Quem queria os Desterrados
em casa, ou o Barão de Trenk, ou a Baro-
mTfi de Castk-Acre, recorria á loja do his-
tórico corcunda Desiderio, e ali, d'entre
nevoeiros de poeira secular, via tirar o
seu folheto querido, d'entre um gordo
sermonario velho, e algum exemplar
novo do Oriente, de José Agostinho.
Hoje a questão mudou. Um traductor que sabe
o officio nunca promette
só a obra. As suas promessas vão mais
longe. Junto com o seu romance vão
milhões, vão preciosidades, vão riquezas
fabulosas, thesouros encantados, minas
do Potosi e da Califórnia. O traductor
não traduz para ganhar dinheiro, nem
para dar leitura; é com o fim piedoso
de enriquecer o género humano. Assi-
gnae e sereis ricos. Cada caderneta custa-
vos um vintém, dez réis, cinco réis,
grátis; com ellas tendes um bilhete; com
um bilhete adquiris o direito de possuir
uma estatua toda de prata, um diamante
do grão-mogol, a muralha da China, o
obuz de Pekim, ou o sino grande de
Moscow; porque assignar para um ro-
mance dá direito ás maiores coisas d'este
mundo, incluindo as massadas, os gal-
licismos, e as pragas dos distribuidores,
que são as maiores que se conhecem
n'este mundo. Tal traductor manda
comprar todos os bilhetes de uma loteria
para dar aos seus assignantes; tal outro
mandou vir uma barra de oiro, que poria
a direito as finanças da Rússia; tal outro
mandou fazer de propósito um diamante
para mimosear os seus assignantes. Agora
é deixar trabalhar a sorte, e se a fortuna
promettida não sae como se esperava,
a culpa não é do traductor, senão da
loteria, que lhe fez uma das suas traves-
suras.
Traductor sabem os nossos leitores
que significa em latim o que transporta,
ou leva de uma para outra parte. Nunca
um termo exprimiu melhor a indole de
um officio. O traductor transporta, muda.
Em primeiro logar, muda quasi sempre
o sentido da phrase. Depois transporta
o dinheiro dos assignantes, e transporta-o
meio ponto acima para o accommodar
ás suas faculdades.
Um traductor de romances brota
como uma planta selvagem debaixo da
terra, cresce como as urzes, alevanta-se
como as silveiras, endurece na aridez
como uma piteira brava. Um poeta pre-
cisa, para florejar, que o cultivem, e que
ao menos, se lhe falha a seiva natural do
estio, lhe subministrem em injecções
artificiaes algum versinho de Lamartine,
uma ou outra regra de versificação. Um
jornalista precisa, senão da faculdade
inventiva, ao menos d'esta sagacidade
mechanica que ensina a encher duas ou
três columnas sem dizer nada, a crear
um macrobio, se ha um espaço ainda
vazio no jornal, e a inventar um escân-
dalo, se o jornal manqueja de interesse.
O traductor não é assim. É a agua bro-
tando limpida e fluente da rocha do de-
serto. É a queixada convertida em arma
possante e terrível nas mãos de Sansão.
É, melhor comparado, a planta venenosa,
nascida espontaneamente ao sol dos tró-
picos, o tojo vivaz e agreste, que viceja
sem cultura e sem amanho. O traductor
nasce, e nasce em toda a parte; não se
pode duvidar de que vive, mas parece
que não morre como os outros animais.
Todos podem ser traductores de roman-
ces, assim como todos podem ser maus,
sem grande trabalho, assim como todos
podem assassinar o seu semelhante ás
picadas de alfinete, assim como todos
podem, em fim, incommodar o género
humano,' sem aprenderem grammatica,
sem saberem francez, e sem terem senso
commum.
Não se pode saber d'onde sae o tra-
ductor de romances. É como as fontes
que borbulham á superficie, escondida a
origem na profundez da terra. D'antes
havia publico e auctores, — homens que
liam e poucos que escreviam: hoje é o
contrario — todos escrevem, e ninguém
lé. Em breve a educação publica terá de
reformar-se. Dentro em poucos annos
bastará ensinar a escrever, que o ler ter-
se-ha de todo feito inútil á humanidade.
Um traductor de romances está com-
pleto em havendo um cruzado para com-
prar uma novella de Sue, ou de Dumas,
dois vinténs para papel, e alguns assi-
gnantes. Um diccionario portátil faz o
resto. É o diccionario que dieta, em
quanto o traductor nada é mais que o
escrivão, ou o meirinho, d'este' processo
escandaloso. Em vez de se dizer — Os
Mysterios do Povo, do Mundo, de Paris, de
Londres, da Cafraria, ou da Lourinhã (por-
que hoje os mysterios fazem fortuna, e
quasi todas as traducções são mysterios
para o traductor e para o publico), tra-
duzidos em portuguez por Fulano, seria
melhor dizer — traduzidos, conforme foi
possivel pelo diccionario de Constâncio.
Um traductor seria a creatura mais
feliz do mundo, se não tivesse que es-
crever o prospecto. É sabido que o pros-
pecto é sempre original, e escripto em
estylo pomposo pela penna do traductor.
O prospecto é uma invenção moderna.
O prospecto, a caderneta, e o traductor
são as três pessoas d'esta trindade mys-
tica; são o Siva, o Vishnu, e o Brahma
d'esta tramóia litteraria, que se chama
uma traducção. O leitor seria a creatura
mais tranquilla do mundo, se não fosse
também o prospecto. O prospecto é im-
placável, é tenaz, é velocíssimo na per-
seguição. O prospecto faz-vos os seus
cumprimentos, estampado em grossos
caracteres na quarta pagina de um jornal.
Até ahi inda o caso vae bem. Tendes o
recurso de fugir da quarta pagina, e de
vos contentardes com as três, que não
são ás vezes menos importunas que a
ultima. O prospecto apparece-vos depois
em typo colossal pregado nas esquinas,
ao lado do cartaz do Gymnasio, que é
também um prospecto sui generis, a pedir
subscripções para más farças traduzidas.
O prospecto senta-se comvosco á mesa
do café, e persegue-vos com seus cara-
cteres implacáveis até tragar a ultima
beberagem. Largaes o café, e tendes na
saida um refugio contra a sua imperti-
nência. O prospecto sitia-vos na repar-
tição. O prospecto impede-vos na rua.
E por fim o prospecto cerca-vos em casa.
O prospecto é como os realejos que
resôam de todos os ângulos da cidade.
É como a Barcarola, que resôa e estruge
nos ares em todos os cantos d'esta terra.
É como uma mulher-vibora, que vos siga
em todo o caminho. É como um espião,
que vos acompanhe em todo o transito.
É como um cão malfazejo e recalcitrante,
que vos segue, vociferando latidos, por
toda uma rua Íngreme. O prospecto é o
paraíso do traductor quando está cheio,
o seu purgatório quando volta em branco,
e o inferno da humanidade, ou esteja
vazio ou cheio de assignaturas.
Se não fosse o prospecto, o traductor
seria uma creatura innocente e inoffen-
siva. Seria um Neptuno sem tridente,
pescador sem rede de arrastar. Tradu-
ziria, e o mundo ficaria em paz. Mas o
prospecto! o prospecto é um punhal,
uma adaga, uma pistola, uma coacção,
uma violência, uma tyrannia! É a mulher
formosa que vos dá um prospecto, e
assignaes. É o chefe de repartição, e es-
taes caido. É a victima, e condoeis-vos.
E um mancebo, e quereis proteger as
lettras nascentes. É um amigo, e condes-
cendeis. É um importuno, e compraes
o vosso socego por um vintém cada
semana.
Á fé que ser traductor é um officio
magnifico. Eu comparo um traductor
ordinário a um creado loquaz, mas gros-
seiro, que vem dizer a seu amo um re-
cado que em phrase correcta e elegante
lhe deu uma pessoa distincta. Parece-me
ouvir um montanhez repetindo em tom
nasal, e com as corruptelas aldeans, os
trechos arredondados de um pregador
de fama.
Os traductores são os soldados rasos
da litteratura. Assim como quasi todos
podem ser soldados, assim quasi todos
teem habilitações para traductores. É
d'este primeiro posto da milicia intellectual que se passa
ás graduações superiores. Uns não passam
da tarimba litteraria, e são marcas que estão sempre de
serviço. Outros escrevem a sua noticia
diversa, e passam a anspeçadas da litteratura;
outros escrevem o seu folhetim.
e sobem a cabos de esquadra. Raros são os
que, como os marechaes de Napoleão,
se elevam desde a obscuridade das fileiras
ao bastão do commando,
e ao fastígio da gloria.
EM VEZ DE SE DIZER OS MYSTERIOS DO POVO, DO MUNDO,DE SOCRATES EM PARIS OU DA LOURINHÃ (PORQUE HOJE OS MYSTERIOS FAZEM FORTUNA E QUASI TODAS AS TRADUCÇÕES SÃO MYSTHERIOS PARA O TRADUCTOR E PARA O PUBLICO
ResponEliminaO NOVELLEIRO POLITICO SABE O QUE SE PASSA NOS GABINETES DOS POLITICOS E NOS GOVERNOS QUE SÃO A SOMBRA DO MAL
PORQUE A FILHA DA LAVADEIRA DA ROUPA SUJA DA POLÍTICA É PRIMA CO-IRMAN DE UM CORREIO DA SECRETARIA DAS RELVAS
TRACTA-SE POR TU UM REGEDOR UM MINISTRO PORREIRO PÁ
E O SOARES JÁ NÃO VEM AOS JANTARES?
SÃO DISTÚRBIOS ALIMENTARES?
OU VAI AOS BANCOS EM LAMENTARES
VÁRIOS
EXTRA ORDINÁRIOS