divendres, 23 de maig del 2014

O EDITOR DE CADERNETAS - REVISTA POPULAR VOLUME IV LISBOA 1851 - A CADERNETA É A LEITURA POPULAR COMO HOJE O B-LOG PARA O ILETRADO FUNCIONAL DESTE CHAVASCAL FEITO PAIZ OU JANGADA DE PEDRA COMO SE DIZ

Vamos continuando a galeria dos 
nossos typos nacionaes. Mas aqui temos de accrescentar, 
a esta designação 
geral, alguma qualificação, que possa distinguir 
o typo que intentamos descrever. 
Porque o editor de cadernetas é sempre 
traductor de romances, e o traductor de 
romances, salvas as excepções tão honrosas como raras, 
se é nacional pela pátria, nacional pela semsaboria, e nacional 
por se declarar victima, e fazer victimas 
os outros, é estrangeiro pelo officio, estrangeiro pela lingua, 
e estrangeiro completamente á litteratura do paiz. 

Antigamente o ser traductor era uma 
punição, que as lettras infligiam aos litte- 
ratos, em proveito do paiz, que se locu- 
pletava com as obras primas das littera- 
turas estranhas. Hoje é uma sinecura de 
ociosos. Antigamente traduzia-se para dar 
alguma obra celebre aos leitores ignoran- 
tes dos idiomas estrangeiros. Hoje tra- 
duz-se para tornar um romance inintel- 
ligivel ás mais innocentes capacidades. 
N'outro tempo dava-se leitura. Hoje pe- 
de-se dinheiro. N'outro tempo o tradu- 
ctor suava para traduzir, hoje afoga-se 
para fazer cadernetas. A caderneta! que 
invenção sublime! que achado feliz do 
século XIX ! A caderneta é a leitura po- 
pular, por excellencia. N'um século que 
chegou a proscrever as mechas, e a levar 
À barateza prodigiosa os palitos phosphoricos;
 n'um século em que a fortuna se 
popularisou, e a sorte se fez plebeia, na 
abençoada cautelinha de vinte e cinco; 
n'um século em que tudo se reparte, 
excepto. a justiça, e em que o thesouro 
inventa as quinzenas, e a administração 
os meios-bois — o livro grosso, o calha- 
maço, o bacamarte infolio, transformou- 
se também, dividiu-se em cadernetas, vo- 
luminho portátil, em que o assignante 
compra, por nada, um braçado de galli- 
cismos, e uma folha de papel mata-borrão. 
A caderneta foi o ultimo esforço da eco- 
nomia politica e da litteratura, a invenção 
admirável de traductor de romances. 

Mas antes de haver cadernetas havia 
traductores. É verdade. Mas só depois 
das cadernetas é que se inventaram os 
prospectos, os annuncios em versaletes, 
os prémios aos assignantes, as rifas, as 
loterias, e esta bagagem immensa que 


fez de cada traductor um verdadeiro ini- 
migo publico. Eu lembro-me de ver em 
papel amarellado e transparente, em typo 
garrafal, e em formato modesto, as ran- 
çosas inspirações da Cabana  
do Sitio da Rochella, e do Armando (*) e 
Oscar, Mas que diíFerença entre esses 
tempos e os de agora! Que distancia 
infinita entre o traductor antigo e o tra~ 
duzidor moderno! O traductor antigo 
era as mais das vezes um homem ho- 
nesto, algum mestre-escola aposentado, 
algum empregado que ia desfructando a 
sua jubilação, homem que um bello dia 
punha na Gabela: — sairam á luz os T)es- 
terrados da Sibéria. Toda a gente se espan- 
tava com o annuncio, enchia-se de curio- 
sidade, e ia ver quem eram aquelles 
desterrados, a quem o traductor, auxiliado 
pela gazeta, tinha quebrado o exilio ou 
os ferros, nas regiões da Scythia. N'isto 
não havia nada de sobrehumano, nem 
de extraordinário. O traductor dizia: 
— aqui tendes uma novella, e dae cá o 
vosso dinheiro. Era um contracto sim- 
ples e leal. Quem queria os Desterrados 
em casa, ou o Barão de Trenk, ou a Baro- 
mTfi de Castk-Acre, recorria á loja do his- 
tórico corcunda Desiderio, e ali, d'entre 
nevoeiros de poeira secular, via tirar o 
seu folheto querido, d'entre um gordo 
sermonario velho, e algum exemplar 
novo do Oriente, de José Agostinho. 

Hoje a questão mudou. Um traductor que sabe 
o officio nunca promette 
só a obra. As suas promessas vão mais 
longe. Junto com o seu romance vão 
milhões, vão preciosidades, vão riquezas 
 

fabulosas, thesouros encantados, minas 
do Potosi e da Califórnia. O traductor 
não traduz para ganhar dinheiro, nem 
para dar leitura; é com o fim piedoso 
de enriquecer o género humano. Assi- 
gnae e sereis ricos. Cada caderneta custa- 
vos um vintém, dez réis, cinco réis, 
grátis; com ellas tendes um bilhete; com 
um bilhete adquiris o direito de possuir 
uma estatua toda de prata, um diamante 
do grão-mogol, a muralha da China, o 
obuz de Pekim, ou o sino grande de 
Moscow; porque assignar para um ro- 
mance dá direito ás maiores coisas d'este 
mundo, incluindo as massadas, os gal- 
licismos, e as pragas dos distribuidores, 
que são as maiores que se conhecem 
n'este mundo. Tal traductor manda 
comprar todos os bilhetes de uma loteria 
para dar aos seus assignantes; tal outro 
mandou vir uma barra de oiro, que poria 


a direito as finanças da Rússia; tal outro 
mandou fazer de propósito um diamante 
para mimosear os seus assignantes. Agora 
é deixar trabalhar a sorte, e se a fortuna 
promettida não sae como se esperava, 
a culpa não é do traductor, senão da 
loteria, que lhe fez uma das suas traves- 
suras. 

Traductor sabem os nossos leitores 
que significa em latim o que transporta, 
ou leva de uma para outra parte. Nunca 
um termo exprimiu melhor a indole de 
um officio. O traductor transporta, muda. 
Em primeiro logar, muda quasi sempre 
o sentido da phrase. Depois transporta 
o dinheiro dos assignantes, e transporta-o 
meio ponto acima para o accommodar 
ás suas faculdades. 

Um traductor de romances brota 
como uma planta selvagem debaixo da 
terra, cresce como as urzes, alevanta-se

como as silveiras, endurece na aridez 
como uma piteira brava. Um poeta pre- 
cisa, para florejar, que o cultivem, e que 
ao menos, se lhe falha a seiva natural do 
estio, lhe subministrem em injecções 
artificiaes algum versinho de Lamartine, 
uma ou outra regra de versificação. Um 
jornalista precisa, senão da faculdade 
inventiva, ao menos d'esta sagacidade 
mechanica que ensina a encher duas ou 
três columnas sem dizer nada, a crear 
um macrobio, se ha um espaço ainda 
vazio no jornal, e a inventar um escân- 
dalo, se o jornal manqueja de interesse. 
O traductor não é assim. É a agua bro- 
tando limpida e fluente da rocha do de- 
serto. É a queixada convertida em arma 
possante e terrível nas mãos de Sansão. 
É, melhor comparado, a planta venenosa, 
nascida espontaneamente ao sol dos tró- 
picos, o tojo vivaz e agreste, que viceja 

sem cultura e sem amanho. O traductor 
nasce, e nasce em toda a parte; não se 
pode duvidar de que vive, mas parece 
que não morre como os outros animais. 
Todos podem ser traductores de roman- 
ces, assim como todos podem ser maus, 
sem grande trabalho, assim como todos 
podem assassinar o seu semelhante ás 
picadas de alfinete, assim como todos 
podem, em fim, incommodar o género 
humano,' sem aprenderem grammatica, 
sem saberem francez, e sem terem senso 
commum. 

Não se pode saber d'onde sae o tra- 
ductor de romances. É como as fontes 
que borbulham á superficie, escondida a 
origem na profundez da terra. D'antes 
havia publico e auctores, — homens que 
liam e poucos que escreviam: hoje é o 
contrario — todos escrevem, e ninguém 
lé. Em breve a educação publica terá de 

 

reformar-se. Dentro em poucos annos 
bastará ensinar a escrever, que o ler ter- 
se-ha de todo feito inútil á humanidade. 

Um traductor de romances está com- 
pleto em havendo um cruzado para com- 
prar uma novella de Sue, ou de Dumas, 
dois vinténs para papel, e alguns assi- 
gnantes. Um diccionario portátil faz o 
resto. É o diccionario que dieta, em 
quanto o traductor nada é mais que o 
escrivão, ou o meirinho, d'este' processo 
escandaloso. Em vez de se dizer — Os 
Mysterios do Povo, do Mundo, de Paris, de 
Londres, da Cafraria, ou da Lourinhã (por- 
que hoje os mysterios fazem fortuna, e 
quasi todas as traducções são mysterios 
para o traductor e para o publico), tra- 
duzidos em portuguez por Fulano, seria 
melhor dizer — traduzidos, conforme foi 
possivel pelo diccionario de Constâncio. 

Um traductor seria a creatura mais 

feliz do mundo, se não tivesse que es- 
crever o prospecto. É sabido que o pros- 
pecto é sempre original, e escripto em 
estylo pomposo pela penna do traductor. 
O prospecto é uma invenção moderna. 
O prospecto, a caderneta, e o traductor 
são as três pessoas d'esta trindade mys- 
tica; são o Siva, o Vishnu, e o Brahma 
d'esta tramóia litteraria, que se chama 
uma traducção. O leitor seria a creatura 
mais tranquilla do mundo, se não fosse 
também o prospecto. O prospecto é im- 
placável, é tenaz, é velocíssimo na per- 
seguição. O prospecto faz-vos os seus 
cumprimentos, estampado em grossos 
caracteres na quarta pagina de um jornal. 
Até ahi inda o caso vae bem. Tendes o 
recurso de fugir da quarta pagina, e de 
vos contentardes com as três, que não 
são ás vezes menos importunas que a 
ultima. O prospecto apparece-vos depois 


em typo colossal pregado nas esquinas, 
ao lado do cartaz do Gymnasio, que é 
também um prospecto sui generis, a pedir 
subscripções para más farças traduzidas. 
O prospecto senta-se comvosco á mesa 
do café, e persegue-vos com seus cara- 
cteres implacáveis até tragar a ultima 
beberagem. Largaes o café, e tendes na 
saida um refugio contra a sua imperti- 
nência. O prospecto sitia-vos na repar- 
tição. O prospecto impede-vos na rua. 
E por fim o prospecto cerca-vos em casa. 
O prospecto é como os realejos que 
resôam de todos os ângulos da cidade. 
É como a Barcarola, que resôa e estruge 
nos ares em todos os cantos d'esta terra. 
É como uma mulher-vibora, que vos siga 
em todo o caminho. É como um espião, 
que vos acompanhe em todo o transito. 
É como um cão malfazejo e recalcitrante, 
que vos segue, vociferando latidos, por 

toda uma rua Íngreme. O prospecto é o 
paraíso do traductor quando está cheio, 
o seu purgatório quando volta em branco, 
e o inferno da humanidade, ou esteja 
vazio ou cheio de assignaturas. 

Se não fosse o prospecto, o traductor 
seria uma creatura innocente e inoffen- 
siva. Seria um Neptuno sem tridente, 
pescador sem rede de arrastar. Tradu- 
ziria, e o mundo ficaria em paz. Mas o 
prospecto! o prospecto é um punhal, 
uma adaga, uma pistola, uma coacção, 
uma violência, uma tyrannia! É a mulher 
formosa que vos dá um prospecto, e 
assignaes. É o chefe de repartição, e es- 
taes caido. É a victima, e condoeis-vos. 
E um mancebo, e quereis proteger as 
lettras nascentes. É um amigo, e condes- 
cendeis. É um importuno, e compraes 
o vosso socego por um vintém cada 
semana. 


 

Á fé que ser traductor é um officio 
magnifico. Eu comparo um traductor 
ordinário a um creado loquaz, mas gros- 
seiro, que vem dizer a seu amo um re- 
cado que em phrase correcta e elegante 
lhe deu uma pessoa distincta. Parece-me 
ouvir um montanhez repetindo em tom 
nasal, e com as corruptelas aldeans, os 
trechos arredondados de um pregador 
de fama. 

Os traductores são os soldados rasos 
da litteratura. Assim como quasi todos 
podem ser soldados, assim quasi todos 
teem habilitações para traductores. É 
d'este primeiro posto da milicia intellectual que se passa 
ás graduações superiores. Uns não passam 
da tarimba litteraria, e são marcas que estão sempre de 
serviço. Outros escrevem a sua noticia 
diversa, e passam a anspeçadas da litteratura; 
outros escrevem o seu folhetim. 


e sobem a cabos de esquadra. Raros são os 
que, como os marechaes de Napoleão, 
se elevam desde a obscuridade das fileiras 
ao bastão do commando,
 e ao fastígio da gloria. 

1 comentari:

  1. EM VEZ DE SE DIZER OS MYSTERIOS DO POVO, DO MUNDO,DE SOCRATES EM PARIS OU DA LOURINHÃ (PORQUE HOJE OS MYSTERIOS FAZEM FORTUNA E QUASI TODAS AS TRADUCÇÕES SÃO MYSTHERIOS PARA O TRADUCTOR E PARA O PUBLICO

    O NOVELLEIRO POLITICO SABE O QUE SE PASSA NOS GABINETES DOS POLITICOS E NOS GOVERNOS QUE SÃO A SOMBRA DO MAL
    PORQUE A FILHA DA LAVADEIRA DA ROUPA SUJA DA POLÍTICA É PRIMA CO-IRMAN DE UM CORREIO DA SECRETARIA DAS RELVAS

    TRACTA-SE POR TU UM REGEDOR UM MINISTRO PORREIRO PÁ

    E O SOARES JÁ NÃO VEM AOS JANTARES?

    SÃO DISTÚRBIOS ALIMENTARES?

    OU VAI AOS BANCOS EM LAMENTARES

    VÁRIOS

    EXTRA ORDINÁRIOS

    ResponElimina