divendres, 4 de juliol del 2014

Em 1553, Coimbra desfructava o seu maior esplendor scientifico e litterario. D. João III contratara, por mediania do Dr. André de Gouveia, principal do Collegio de Santa Barbara em Paris, dos mais celebres professores das universidades européas, que vieram ao Mondego, leccionar artes, mathematica, rhetorica, humanidades e linguas, reformando-se logo os collegios que havia, e fundando-se outros, com desusado luxo e ordenação. Já muito antes a nossa universidade se tornara foco de litteratura, algo. luzente, illustrado por Sá de Miranda em 1627 (*), por Camões em 1538, e em 1553 pelo Dr. António Ferreira, á volta de quem, jungidos, os novos levantaram a poesia nacional do século XVI. Com a vinda dos lentes estrangeiros, e especialmente dos francezes, fez-se a vida escolar fraterna e muito dócil*, estudantes e lentes privavam commumente, participando dos mesmos conclaves, e entretendo os ócios com jogos floraes e discussões. Ia longe o tempo da fidalguia obcecada pelo esclusivo amor das ladroeiras coloniaes, que verbera Camões no canto V dos Luziadas:

 « Mas o peor que tudo he, que a ventura 
Tão ásperos os fez, e tão austeros, 
Tão rudos, e de engenho tão remisso ...» 
André de Rezende, na oração de sapiência de 1534, recitada na universidade, annuncia o movimento scientifico da Renascença, concitando a mocidade portugueza a impulsional-o, e agora que decahia a conquista, com os mesmos filhos dos lettrados e riCo-homens, os dos príncipes, vinham ao Mondego adorar Minerva e as nove irmãs (*) 
Em 1526, estando D. João III e a corte em Coimbra, fugindo á peste de Lisboa, representaram-se no paço real, seis farças novas de Gil Vicente, que residia então em Santarém.
 As representações scenicas que costumavam dar lustre ás datas graves da universidade, com a revoada estrangeira, alcançam como que um novo tom de alta cultura, e as peças theatraes dos académicos são o sphygmometro por onde aferir d'ahi em diante as sympathias ou antipathias escolares em bellas-letras. Aié li campeara o que chamaríamos o theatro portuguez da Edade-Média : alguma tragedia de Séneca em latim, alguma lambida paródia aos mysterios francezes e castelhanos... 

Mas apparecem os EsU^angeiros e o Vilhal- pandos de Sá de Miranda, resabcndo, certo, ainda ás reminiscências latinas de Terêncio e Plauto, mas já com uma tintura moderna, italiana ; apparecem os Amphitnóes de Camões, em redondilha popular, representados em não sei que festa universitária, lingua tersissima, humor plebeu tunante, directa inspiração dos autos de cordel de Gil Vicente, — « comedia, diz o Sr. Theophilo Braga, que só se explica como reacção turbulenta de escola, que chasqueava por esse modo das coisas em que os graves doutores queriam ainda misturar o ensino » — apparece o Bristo, de António Ferreira, o amigo dilecto e o camarada litterario do professor estrangeiro Diogo de Teive, representada por académicos a quando as festas nupciaes do príncipe D. João, comedia a seu turno de reacção contra Camões, e aspirando á renovação clássica dos francezes; e finalmente, quando já a plêiade quinhentista rutila na plena gloria d\ima restauração litteraria abundantissima, eis a Eufrosina, do cortezão Jorge Ferreira, a primeira comedia portuguesa escripta em prosa, e reflectindo o génio hespanhol da Celestina, de Rozas. 

 O prior do Crato, D. António, filho do infante D. Luiz, estudou em Coimbra, no collegio do mosteiro de Santa Cruz, e o mesmo succedeu aos filhos do duque de Bragança, D. Theodosio, um dos quaes, Theo- tonio, arcebispou em Évora, sendo o outro D. Prior de Guimarães. 

O que seriam, nesta época de plethora intellectual coimbrã, dada a camaradagem jovial de mestres e discípulos, taes representações, mirando de mais a mais demolições e vindictas litterarias, julgue-o o frequentaflor das nossas primeiras récitas de D. Maria, quando os passionaes do gallinheiro e da platéa, rubros se engalfinham, a propósito da traça d'uma peça, e da estupidez ou talento de um autor. 

Em 1551, acabando o prior do Crato de cursar philosophia e metaphysica, seu pai, D. Luiz, solicitou do geral de Santa Cruz o gráo de bacharel em artes para o moço; e concedido, houve no claustro representação da tragedia do Gigante Golias, por collegas. 
A tragedia era em latim, com coros e musica mui suave » ; mas tal caçoada foi essa noite de theatro, que ficou da récita a palavra goliardo (frascario, rufião), rememorativa das tropelias que a rapaziada por lá fez. 
Quando D. João III entrega aos jesuitas o ensino, depondo o cordeal Diogo de Teive, e encarregando á grammatica do padre Manoel Alvares, a missão de bestificar as intelligencias, o divorcio da familia estudiosa pronuncia-se, categorisando-se os lentes por forma a separarem-se da bohemia familiar c'os seus discipulos; 
e esta separação, trazendo a perda da confiança, e quebrando a fraternidade commum dos ideaes e das tendências, interdiz a amisade entre os dois grupos; 

e o lente faz-se uma espécie d'idolo despótico, que o estudante acata, pro forma, e de cuja pedanteria se desforça, pelo chasco.

Escapa-me a chronica theatral da universidade até á fundação do theatro Académico, em 62, pleno constitucionalismo; nem tampouco eu poderia aqui espalmal-a, já por ser longa, já porque n'um simples folhetinista diriam mal pretenções de historiador. Sei só que era já velho o costume de se solemnisar o terminus do curso com uma récita de escolares, e que havia na rua da Mathematica uma antiga  casa de aluguel, onde, nos começos de julho, se carpintejava proscénio para a peça, estando para se representar ahi o Catão, de Garret, o Leitãosinho, quando o bispo conde D. Francisco de Lemos, farejando-lhe tendências jacobinas, mandou fechar a casa, e prohibir assim todas as récitas. 
Desde 182... até 52, não houve theatro, ou raras vezes, que as anciedades liber- tárias da juventude, por aquelles calamitosos tempos, compraziam-se mais na acção, do que nas fantasmagorias plumitivas. A' geração de Garret, succedera a dos seus exagerados sacristães, os ultra-romanticos, e a obsessão medieval roia o estro desses meninos de coro universitários, João de Lemos, Rodrigues Cordeiro, Thomaz Ribeiro, etc. ; até que a geração de Anthero do Quental e de Queiroz, fez morder á litteratura universitária, um novo freio. 
Continuava a thronar na universidade o regimen encarcerante de Pombal, ultimo reformador da casa, tanto monta dizer que o divorcio entre estudantes e lentes, proseguia, e prosegue, encontrando-se apenas nas aulas, exigindo estes á entrada o tradicional desbarretamento, e perseguindo aquelles até ao ponto de fazerem intervir nas notas do curso, os mais insignificantes e mexericados detalhes da vida particular. 

Em 1862 o lente de theologia Marmelada , ex-frade cruzio, rapozou sinistramente um urso, ou premiado, que se apresentara ao exame, de  buço. 
Antes do acto, como ainda hoje, os estudantes ouviam missa e commungavam, pronunciando apóz, deante do jury, uma oração latina em que juravam defender o mysterio da Immaculada Conceição

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