« Mas o peor que tudo he, que a ventura
Tão ásperos os fez, e tão austeros,
Tão rudos, e de engenho tão remisso ...»
André de Rezende, na oração de sapiência
de 1534, recitada na universidade, annuncia o
movimento scientifico da Renascença, concitando
a mocidade portugueza a impulsional-o, e agora
que decahia a conquista, com os mesmos filhos
dos lettrados e riCo-homens, os dos príncipes,
vinham ao Mondego adorar Minerva e as nove
irmãs (*)
Em 1526, estando D. João III e a corte em Coimbra,
fugindo á peste de Lisboa, representaram-se no paço
real, seis farças novas de Gil Vicente, que residia então
em Santarém.
As representações scenicas que costumavam dar lustre ás datas graves da universidade, com a revoada estrangeira, alcançam
como que um novo tom de alta cultura, e as
peças theatraes dos académicos são o sphygmometro por onde aferir d'ahi em diante as
sympathias ou antipathias escolares em bellas-letras. Aié li campeara o que chamaríamos o
theatro portuguez da Edade-Média : alguma
tragedia de Séneca em latim, alguma lambida
paródia aos mysterios francezes e castelhanos...
Mas apparecem os EsU^angeiros e o Vilhal-
pandos de Sá de Miranda, resabcndo, certo,
ainda ás reminiscências latinas de Terêncio
e Plauto, mas já com uma tintura moderna,
italiana ; apparecem os Amphitnóes de Camões,
em redondilha popular, representados em não
sei que festa universitária, lingua tersissima,
humor plebeu tunante, directa inspiração dos
autos de cordel de Gil Vicente, — « comedia, diz
o Sr. Theophilo Braga, que só se explica como
reacção turbulenta de escola, que chasqueava
por esse modo das coisas em que os graves
doutores queriam ainda misturar o ensino » —
apparece o Bristo, de António Ferreira, o amigo
dilecto e o camarada litterario do professor
estrangeiro Diogo de Teive, representada por
académicos a quando as festas nupciaes do
príncipe D. João, comedia a seu turno de reacção
contra Camões, e aspirando á renovação clássica
dos francezes; e finalmente, quando já a plêiade
quinhentista rutila na plena gloria d\ima restauração litteraria abundantissima, eis a Eufrosina,
do cortezão Jorge Ferreira, a primeira comedia
portuguesa escripta em prosa, e reflectindo o
génio hespanhol da Celestina, de Rozas.
O prior do Crato, D. António, filho do infante
D. Luiz, estudou em Coimbra, no collegio do mosteiro
de Santa Cruz, e o mesmo succedeu aos filhos do duque
de Bragança, D. Theodosio, um dos quaes, Theo-
tonio, arcebispou em Évora, sendo o outro D. Prior de
Guimarães.
O que
seriam, nesta época de plethora intellectual
coimbrã, dada a camaradagem jovial de mestres
e discípulos, taes representações, mirando de
mais a mais demolições e vindictas litterarias,
julgue-o o frequentaflor das nossas primeiras
récitas de D. Maria, quando os passionaes do
gallinheiro e da platéa, rubros se engalfinham,
a propósito da traça d'uma peça, e da estupidez
ou talento de um autor.
Em 1551, acabando
o prior do Crato de cursar philosophia e
metaphysica, seu pai, D. Luiz, solicitou do
geral de Santa Cruz o gráo de bacharel em
artes para o moço; e concedido, houve no claustro representação da tragedia do Gigante
Golias, por collegas.
A tragedia era em latim,
com coros e musica mui suave » ; mas tal
caçoada foi essa noite de theatro, que ficou
da récita a palavra goliardo (frascario, rufião),
rememorativa das tropelias que a rapaziada
por lá fez.
Quando D. João III entrega aos jesuitas o
ensino, depondo o cordeal Diogo de Teive, e
encarregando á grammatica do padre Manoel
Alvares, a missão de bestificar as intelligencias,
o divorcio da familia estudiosa pronuncia-se,
categorisando-se os lentes por forma a separarem-se da bohemia familiar c'os seus discipulos;
e esta separação, trazendo a perda da confiança,
e quebrando a fraternidade commum dos ideaes
e das tendências, interdiz a amisade entre os
dois grupos;
e o lente faz-se uma espécie d'idolo
despótico, que o estudante acata, pro forma, e
de cuja pedanteria se desforça, pelo chasco.
Escapa-me a chronica theatral da universidade
até á fundação do theatro Académico, em 62,
pleno constitucionalismo; nem tampouco eu
poderia aqui espalmal-a, já por ser longa, já
porque n'um simples folhetinista diriam mal
pretenções de historiador. Sei só que era já
velho o costume de se solemnisar o terminus
do curso com uma récita de escolares, e que
havia na rua da Mathematica uma antiga
casa de aluguel, onde, nos começos de julho,
se carpintejava proscénio para a peça, estando
para se representar ahi o Catão, de Garret, o
Leitãosinho, quando o bispo conde D. Francisco
de Lemos, farejando-lhe tendências jacobinas,
mandou fechar a casa, e prohibir assim todas
as récitas.
Desde 182... até 52, não houve
theatro, ou raras vezes, que as anciedades liber-
tárias da juventude, por aquelles calamitosos
tempos, compraziam-se mais na acção, do que
nas fantasmagorias plumitivas. A' geração de
Garret, succedera a dos seus exagerados sacristães, os ultra-romanticos, e a obsessão medieval
roia o estro desses meninos de coro universitários, João de Lemos, Rodrigues Cordeiro,
Thomaz Ribeiro, etc. ; até que a geração de
Anthero do Quental e de Queiroz, fez morder
á litteratura universitária, um novo freio.
Continuava a thronar na universidade o regimen
encarcerante de Pombal, ultimo reformador da
casa, tanto monta dizer que o divorcio entre
estudantes e lentes, proseguia, e prosegue, encontrando-se apenas nas aulas, exigindo estes á
entrada o tradicional desbarretamento, e perseguindo aquelles até ao ponto de fazerem intervir
nas notas do curso, os mais insignificantes e
mexericados detalhes da vida particular.
Em 1862 o lente de theologia Marmelada ,
ex-frade cruzio, rapozou sinistramente um urso, ou premiado, que se apresentara ao exame, de
buço.
Antes do acto, como ainda hoje, os
estudantes ouviam missa e commungavam,
pronunciando apóz, deante do jury, uma oração
latina em que juravam defender o mysterio
da Immaculada Conceição
A BE-LOUKO DE GIL BLAS DAS FÊMEAS DE SANTILHANA OU DE SANTANA OU DE SATANÁS TANTO FAZ Ó RAPAZ UM BE LOG À CUNHA...OU DIZ-SE AO CUNHA?
divendres, 4 de juliol del 2014
Em 1553, Coimbra desfructava o seu maior esplendor scientifico e litterario. D. João III contratara, por mediania do Dr. André de Gouveia, principal do Collegio de Santa Barbara em Paris, dos mais celebres professores das universidades européas, que vieram ao Mondego, leccionar artes, mathematica, rhetorica, humanidades e linguas, reformando-se logo os collegios que havia, e fundando-se outros, com desusado luxo e ordenação. Já muito antes a nossa universidade se tornara foco de litteratura, algo. luzente, illustrado por Sá de Miranda em 1627 (*), por Camões em 1538, e em 1553 pelo Dr. António Ferreira, á volta de quem, jungidos, os novos levantaram a poesia nacional do século XVI. Com a vinda dos lentes estrangeiros, e especialmente dos francezes, fez-se a vida escolar fraterna e muito dócil*, estudantes e lentes privavam commumente, participando dos mesmos conclaves, e entretendo os ócios com jogos floraes e discussões. Ia longe o tempo da fidalguia obcecada pelo esclusivo amor das ladroeiras coloniaes, que verbera Camões no canto V dos Luziadas:
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