Rochefort por exemplo estava servido,
se para demolir o império na Lanterne
empregasse a proza do chronista nacional
Alberto Braga.
Argumentam-me depois
co'a pudicícia alvorotada das madamas, o
que me obriga a dizer que o madamismo
nacional
o evitar que a sociedade seja
menos torpe, e os seus maridos e irmãos
menos canalhas.
Na velha universidade de Coimbra ha o costume
de se solemnisarem as formaturas do
curso de direito, com uma espécie de farça (FARSA),
onde os estudantes do ultimo anno, ao mesmo tempo
autores e actores, logram dar traças, já livres
da ferula, á sua veia cómica e satyrica.
Ignoro se esta sorte de representações burlescas
deriva estrictamente, na correnteza dos
séculos, de tradições litterarias appensas áquelle
grande instituto nacional, porque á uma, a
historia da universidade de Coimbra não está
feita; e á outra, attento o regimen jezuitico da
casa, taes espectáculos, fazendo para assim
dizer nótula á parte, não mereceram traslado
tios archivos onde a vida dos académicos não
consta além do registro de matricula, e algumas
notas d'anno, estenographadas em lingua secca
burocrática.
E' porém natural e quasi certo,
que semelhantes festas, de longa cifra
tenham existido e servido para realçar
o ouro de certas datas^
visto a organisação da universidade e suas
successivas remodelações, reflectirem, par e
passo, as dos estabelecimentos estrangeiros,,
paralellos, e haver na chronica destes, menção
jovial de representações e tertúlias apadrinhadas
pela respectiva regra interna.
Em todos os tempos, a contemplatividade
portugueza só inventou quando não havia mais
donde imitar ; e assim na constituição dos
estudos, foi tudo, desde as minuciosas linhas
dos programmas, té aos pequeninos detalhes
da policia interna dos collegios, e rigores
clericaes da fatiota e da etiqueta. A veste
clerical, por exemplo, que era a toga dos antigos
philosophos, adoptada pela igreja, conservou-se
nos claustros da universidade portugueza, como
imitação d'outras, estrangeiras, e em canções
satyricas do Cancioneiro da Vaticana, lá vem
menção do trajo ao uso de Montpellier, dos
escolares do tempo de D. Diniz.
« Mais vejo-lh'I capello d'Ultramar,
e traj'al uso bem de Mompilhér ...»
Encontro em um livro de Paul Bourget^
sobre as universidades de Oxford, menção
graciosa d'uma espécie de saráo de quintanistas,
em cujas desenvoltas linhas geraes presinto a
tradição medieval d'uma aberta de chalaça
interrompendo a gravidade cathedratica, e
dando ao estudante a sua hora de reprezalia
faceta sobre os lentes. E' na festa annual,
em honra dos humanistas, no
theatro académico, Sheldoniam Theatre, com
assistência de lentes e familias, para entrega,
aos que findaram o curso, dos respectivos
diplomas de doutor. « O aspecto exterior do
edifício, em retunda, escreve Bourget, singula-
risa-se ainda por uma ordem semi-circular de
bustos colossaes — caricaturas de pedra, que uns
dizem representar Césares de Roma, e outros,
sábios illustres da mãe Grécia. Interiormente,
desenrola-se uma galeria, contornada de balcão,
onde a pragmática manda permanecer sempre
de pé. Na extremidade do balcão, um estrado,
e duas tribunas análogas a púlpitos d'igreja,
altas, de dois metros, e destinadas a pedestaes
d'eloquencia.
a A's onze da manhã, balcões e galerias,
começam a ser invadidos de gentana, e fica
somente vasio o estrado onde devem tomar
iogar as mulheres dos dignitários d'Oxford, e
os convidados doestes, reservando-se poltronas
para o vice-cancelario e os assessores. Reclama
o uso, que os estudantes, dessiminados nas
partes superiores da galeria, lancem a propósito
do menor incidente, exclamações de todas as
sortes. A uma dama d'amarello, que vai tomar
Iogar no estrado, « três animações á de amarello! »
grita uma vóz do gallinheiro; e três hurrahs
expludem, lançados por centenas de pulmões*
« — Mais três pela cunhada do viuvo ! » diz.
outra vóz, fazendo allusão a um projecto de lei,
recente, autorizando o casamento entre o viuva
e a irmã da morta. Hurrahs de novo, ao som
da vóz propondo agora « três animações ao
Dr. N. ! .
a O Dr. N. é um bom velho jovial, meio
decrépito, que se demora de mais co'os perió-
dicos, no Club Union, e que os estudantes
accusam, de na sala de leitura, se deixar
dormir, em vêz de ler. Figura no estrado em
vestuário de professor, mas isso não impedirá
que de quarto em quarto de hora, durante todo
o tempo da cerimonia, a endiabrada voz lance
o foguete de a lá se deixou dormir outra vez o
Dr. Ni ! », que faz estalar a sala em acclamaçóes.
Vai assim uma ondulação de clamores e de
dichotes, te que o órgão começa o God sape
ihe qiieen, e os bedéis, com suas massas de
prata, afastam a multidão para dar passagem
ao vice-cancelario, cm grande gala, e ao seu
cortejo. Nem por isso os hurrahs adormecem,
senão tomam objecto preciso, sendo todos os
altos personagens do cortejo, acclamados, uns
traz d'outros, emquanto do alto do logar da
presidência começa o vice-cancelario uma arenga
em latinório. A vóz delle é sem cessar mordida
dos apartes que vêm dos quatro cantos da sala,
e levantam nos espectadores, tempestades de
risadas. Dir-se-hia um meeting politico, se não
fora a cordialidade respirada na communhãô
galhofeira de tantas bôccas juvenis. Nem o
vice-cancelario pensa em se zangar contra os
apartes, nem os trocistas têem por um momento
a ideia de lhe ser desagradáveis... Acabada
a parlenda, é occasião de serem recebidos os
estrangeiros a quem a universidade confere
est'anno, diplomas honorificos — sem duvida
foi destas cerimonias que Molière troçou, na
recepção fantasista do Malade,
« Os futuros doutores são conduzidos em par
do estrado, e levam ao hombro a toga negra,
com o signal de seda escarlate. O introductor
faz de cada qual, o elogio, latino, concluindo
por que o candidato deva ser admittido ao
doutorado — honor cansa. Responde-lhe com
o dignus est entrare^ o vice-cancelario, o qual
termina por um honoris cansa, que toda a sala
repete ; e vai o novo membro da universidade
assentar-se n'um banco reservado, emquanto,
a julgar pelo charivari dos insurrectos, « o
Dr. N. ronca de novo ...» Mas já outra vóz,
grave e mui forte, a do orador publico, dobra
em latim a oração dos mortos illustres da
universidade, esse anno; dois laureados se lhe
seguem a ler publicamente algumas paginas
dos a ensaios » coroados nos concursos : Vida
das universidades na Idade Média, Commercio
marítimo da Inglaterra, etc.
Se desta vez « o dr. N. está a roncar •,
conforme pretendem ainda alguns graciosos do
paraiso, é que o bom velho é mouco, tanto os
applausos e os berros sobrexcitam o theatro
em convulsões. Uma chuva de flechas de papel
cae das alturas. E a violenta jovialidade physica,
transparece e espadana livremente, cortando
os versos latinos, gregos e inglezes, que outros
laureados recitam, com ademanes doutoraes . . .
Tal é nas universidades inglezas o estado
actual das festas solemnes d'estudantes, e
prevê-se que ellas obedeçam á tradição que as
fixou nos claustros académicos, e, dada a
inamovibilidade do praxismo inglez, as trouxe
até nós, muito pouco ou quasi nada deturpadas.
Com a necessidade oratória, orgânica, do exa-
gero, que é nos meridionaes lei de conducta,
deviam essas diversões revestir por cá uma
espécie de debordante jogralidade, ávida, como
é nosso costume, de satyras sangrentas, de
grossas allusões visando, ao pessoal, e tanto
mais crua, quanto mais férreo o despotismo
disciplinar estatuido, do professor sobre o
rapaz.
Em todas as corporações e instituições da
Edade Média se acham vestígios desta bonhomia
singular de se conceder aos humildes, o seu dia
de desforço, pela irreverência e pelo escarneo.
Eram os barões feudaes, senhores de forca e
cutello, e com auctoridade despótica sobre o
burgo, servindo n'um certo dia, como lacaios,
os próprios servos, e deixando-se apupar e
descompor no meio das gargalhadas da canalha.
Os reis mais duros, ouvindo nos anniversarios
celebres, pela bôcca dos foliões, verdades
terríveis, que lhes mandavam os poetas do
descaramento das farças, mal embrulhadas,
como em Gil Vicente, na rocamboleria d\ima
efabulação pouco illudente.
A própria Igreja, de lithurgias tão ásperas e
apotheoses fanáticas tão bisonhas, abrindo as
naves á representação dos autos desbocados, e
deixando entrar, na festa do papa doido,
procissões de bêbedos e rameiras, tocando latas,
e conduzindo em triumpho um parvo, ás ecarranchas
n'um asno, e com uma tiara de papel
sobre a cabeça. No respeitante á universidade
portugueza, o que nestas bambóchas de vinte
e quatro horas, de vivo houvesse, em tempo
antigo,tempo devorou-o (ou não o conheço
eu, o que é mais certo); mas pelo que se sabe
de similar na chronica paralella, é de prever
que ellas não andassem longe do que Bourget
nos conta, relativo ás universidades d'lnglaterra.
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