divendres, 4 de juliol del 2014

Argumentam-me depois co'a pudicícia alvoroçada das madamas, o que me obriga a dizer que o madamismo nacional tem do pudor uma postiça e tola ideação. Na literatura, princezas, não ha nem pode haver palavras sujas. O que ha é assumptos sujos, assumptos pulhas, deletérios assumptos, que os escritores não inventam, e fazem parte do dia a dia da cidade, assumptos enfim de que a linguagem escrita é apenas o impreterivel signal graphico. Consequentemente o pudor feminino tem apenas, como meio d'impedir que os pamphletarios escrevam plebeísmos, o evitar que a sociedade seja menos torpe, e os seus maridos e irmãos menos canalhas.

Rochefort por exemplo estava servido, 
se para demolir o império na Lanterne 
empregasse a proza do chronista nacional 
Alberto Braga. 
Argumentam-me depois 
co'a pudicícia alvorotada das madamas, o 
que me obriga a dizer que o madamismo 
nacional 
o evitar que a sociedade seja 
menos torpe, e os seus maridos e irmãos 
menos canalhas.  
Na velha universidade de Coimbra ha o costume 
de se solemnisarem as formaturas do 
curso de direito, com uma espécie de farça (FARSA), 
onde os estudantes do ultimo anno, ao mesmo tempo 
autores e actores, logram dar traças, já livres 
da ferula, á sua veia cómica e satyrica. 

Ignoro se esta sorte de representações burlescas 
deriva estrictamente, na correnteza dos 
séculos, de tradições litterarias appensas áquelle 
grande instituto nacional, porque á uma, a 
historia da universidade de Coimbra não está 
feita; e á outra, attento o regimen jezuitico da 
casa, taes espectáculos, fazendo para assim 
dizer nótula á parte, não mereceram traslado 
tios archivos onde a vida dos académicos não 
consta além do registro de matricula, e algumas 
notas d'anno, estenographadas em lingua secca 
burocrática. 

E' porém natural e quasi certo, 
que semelhantes festas, de longa cifra 
tenham existido e servido para realçar 
o ouro de certas datas^ 
visto a organisação da universidade e suas 
successivas remodelações, reflectirem, par e 
passo, as dos estabelecimentos estrangeiros,, 
paralellos, e haver na chronica destes, menção 
jovial de representações e tertúlias apadrinhadas 
pela respectiva regra interna. 

Em todos os tempos, a contemplatividade 
portugueza só inventou quando não havia mais 
donde imitar ; e assim na constituição dos 
estudos, foi tudo, desde as minuciosas linhas 
dos programmas, té aos pequeninos detalhes 
da policia interna dos collegios, e rigores 
clericaes da fatiota e da etiqueta. A veste 
clerical, por exemplo, que era a toga dos antigos 
philosophos, adoptada pela igreja, conservou-se 
nos claustros da universidade portugueza, como 
imitação d'outras, estrangeiras, e em canções 
satyricas do Cancioneiro da Vaticana, lá vem 
menção do trajo ao uso de Montpellier, dos 
escolares do tempo de D. Diniz. 

« Mais vejo-lh'I capello d'Ultramar, 
e traj'al uso bem de Mompilhér ...» 

Encontro em um livro de Paul Bourget^ 
sobre as universidades de Oxford, menção 
graciosa d'uma espécie de saráo de quintanistas, 
em cujas desenvoltas linhas geraes presinto a 
tradição medieval d'uma aberta de chalaça 
interrompendo a gravidade cathedratica, e 
dando ao estudante a sua hora de reprezalia 
faceta sobre os lentes. E' na festa annual, 
 em honra dos humanistas, no 
theatro académico, Sheldoniam Theatre, com 
assistência de lentes e familias, para entrega, 
aos que findaram o curso, dos respectivos 
diplomas de doutor. « O aspecto exterior do 
edifício, em retunda, escreve Bourget, singula- 
risa-se ainda por uma ordem semi-circular de 
bustos colossaes — caricaturas de pedra, que uns 
dizem representar Césares de Roma, e outros, 
sábios illustres da mãe Grécia. Interiormente, 
desenrola-se uma galeria, contornada de balcão, 
onde a pragmática manda permanecer sempre 
de pé. Na extremidade do balcão, um estrado, 
e duas tribunas análogas a púlpitos d'igreja, 
altas, de dois metros, e destinadas a pedestaes 
d'eloquencia. 

a A's onze da manhã, balcões e galerias, 
começam a ser invadidos de gentana, e fica 
somente vasio o estrado onde devem tomar 
iogar as mulheres dos dignitários d'Oxford, e 
os convidados doestes, reservando-se poltronas 
para o vice-cancelario e os assessores. Reclama 
o uso, que os estudantes, dessiminados nas 
partes superiores da galeria, lancem a propósito 
do menor incidente, exclamações de todas as 
sortes. A uma dama d'amarello, que vai tomar 
Iogar no estrado, « três animações á de amarello! » 
grita uma vóz do gallinheiro; e três hurrahs 
expludem, lançados por centenas de pulmões* 
« — Mais três pela cunhada do viuvo ! » diz. 
outra vóz, fazendo allusão a um projecto de lei, 
recente, autorizando o casamento entre o viuva 
e a irmã da morta. Hurrahs de novo, ao som 
da vóz propondo agora « três animações ao 
Dr. N. ! . 

a O Dr. N. é um bom velho jovial, meio 
decrépito, que se demora de mais co'os perió- 
dicos, no Club Union, e que os estudantes 
accusam, de na sala de leitura, se deixar 
dormir, em vêz de ler. Figura no estrado em 
vestuário de professor, mas isso não impedirá 
que de quarto em quarto de hora, durante todo 
o tempo da cerimonia, a endiabrada voz lance 
o foguete de a lá se deixou dormir outra vez o 
Dr. Ni ! », que faz estalar a sala em acclamaçóes. 
Vai assim uma ondulação de clamores e de 
dichotes, te que o órgão começa o God sape 
ihe qiieen, e os bedéis, com suas massas de 
prata, afastam a multidão para dar passagem 
ao vice-cancelario, cm grande gala, e ao seu 
cortejo. Nem por isso os hurrahs adormecem, 
senão tomam objecto preciso, sendo todos os 
altos personagens do cortejo, acclamados, uns 
traz d'outros, emquanto do alto do logar da 
presidência começa o vice-cancelario uma arenga 
em latinório. A vóz delle é sem cessar mordida 
dos apartes que vêm dos quatro cantos da sala, 
e levantam nos espectadores, tempestades de 
risadas. Dir-se-hia um meeting politico, se não 
fora a cordialidade respirada na communhãô 
galhofeira de tantas bôccas juvenis. Nem o 
vice-cancelario pensa em se zangar contra os 
apartes, nem os trocistas têem por um momento 
a ideia de lhe ser desagradáveis... Acabada 
a parlenda, é occasião de serem recebidos os 
estrangeiros a quem a universidade confere 
est'anno, diplomas honorificos — sem duvida 
foi destas cerimonias que Molière troçou, na 
recepção fantasista do Malade, 

« Os futuros doutores são conduzidos em par 
do estrado, e levam ao hombro a toga negra, 
com o signal de seda escarlate. O introductor 
faz de cada qual, o elogio, latino, concluindo 
por que o candidato deva ser admittido ao 
doutorado — honor  cansa. Responde-lhe com 
o dignus est entrare^ o vice-cancelario, o qual 
termina por um honoris cansa, que toda a sala 
repete ; e vai o novo membro da universidade 
assentar-se n'um banco reservado, emquanto, 
a julgar pelo charivari dos insurrectos, « o 
Dr. N. ronca de novo ...» Mas já outra vóz, 
grave e mui forte, a do orador publico, dobra 
em latim a oração dos mortos illustres da 
universidade, esse anno; dois laureados se lhe 
seguem a ler publicamente algumas paginas 
dos a ensaios » coroados nos concursos : Vida 
das universidades na Idade Média, Commercio 
marítimo da Inglaterra, etc. 


Se desta vez « o dr. N. está a roncar •, 
conforme pretendem ainda alguns graciosos do 
paraiso, é que o bom velho é mouco, tanto os 
applausos e os berros sobrexcitam o theatro 
em convulsões. Uma chuva de flechas de papel 
cae das alturas. E a violenta jovialidade physica, 
transparece e espadana livremente, cortando 
os versos latinos, gregos e inglezes, que outros 
laureados recitam, com ademanes doutoraes . . .  

Tal é nas universidades inglezas o estado 
actual das festas solemnes d'estudantes, e 
prevê-se que ellas obedeçam á tradição que as 
fixou nos claustros académicos, e, dada a 
inamovibilidade do praxismo inglez, as trouxe 
até nós, muito pouco ou quasi nada deturpadas. 
Com a necessidade oratória, orgânica, do exa- 
gero, que é nos meridionaes lei de conducta, 
deviam essas diversões revestir por cá uma 
espécie de debordante jogralidade, ávida, como 
é nosso costume, de satyras sangrentas, de 
grossas allusões visando, ao pessoal, e tanto 
mais crua, quanto mais férreo o despotismo 
disciplinar estatuido, do professor sobre o 
rapaz. 

Em todas as corporações e instituições da 
Edade Média se acham vestígios desta bonhomia 
singular de se conceder aos humildes, o seu dia 
de desforço, pela irreverência e pelo escarneo. 
Eram os barões feudaes, senhores de forca e 
cutello, e com auctoridade despótica sobre o 
burgo, servindo n'um certo dia, como lacaios, 
os próprios servos, e deixando-se apupar e 
descompor no meio das gargalhadas da canalha. 
Os reis mais duros, ouvindo nos anniversarios 
celebres, pela bôcca dos foliões, verdades 
terríveis, que lhes mandavam os poetas do 
descaramento das farças, mal embrulhadas, 
como em Gil Vicente, na rocamboleria d\ima 
efabulação pouco illudente. 

A própria Igreja, de lithurgias tão ásperas e 
apotheoses fanáticas tão bisonhas, abrindo as 
naves á representação dos autos desbocados, e 
deixando entrar, na festa do papa doido, 
procissões de bêbedos e rameiras, tocando latas, 
e conduzindo em triumpho um parvo, ás ecarranchas 
n'um asno, e com uma tiara de papel 
sobre a cabeça. No respeitante á universidade 
portugueza, o que nestas bambóchas de vinte 
e quatro horas, de vivo houvesse, em tempo 
antigo,tempo devorou-o (ou não o conheço 
eu, o que é mais certo); mas pelo que se sabe 
de similar na chronica paralella, é de prever 
que ellas não andassem longe do que Bourget 
nos conta, relativo ás universidades d'lnglaterra. 

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