sabes? — acrescentou elle na sua voz descançada
notei uma coisa...
— ?
— ... Que no quarto do Boavida é tudo illustrado,
menos elle !
Mas siga a historia.
No meu tempo, ainda a quasi totalidade dos estudantes
andava sempre de capa e batina. O gorro era
já raro pelas costas abaixo, ou cabido em cima da
orelha. A maior parte andava cm cabello ; alguns tra-
ziam um pequeno bonnet preto como os de viagem, e
as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam
ao meio das canelas, mas umas batininhas que só
chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado do que
outra coisa) — e a respeito de meia preta e volta de
padre, só nos actos, e a volta ás vezes era de papel,
e as meias d'algum theologo !
Ainda assim, já por lá começavam a apparecer os
janotas, a que nós chamávamos os polainudos, que em
sahindo da aula se vestiam á futrica, e iam para a
Baixa de luvas amarellas, e charuto ! Esses tinham o
seu Olympo no Café Lusitano da Calçada, d'um José
Lúcio que era barytono, ou á porta da Ourivesaria do
Abilio, ou da Havaneza; — e o resto, a plebe, passava
as tardes a flanar pela Baixa, no Gaes a vêr as trica-
nas, ou a passear pela estrada da Beira. Eu e os da
minha troupe, faziamos estação no Anda a roda, perto
de Santa Cruz, á porta ou n'um cubiculo lá para
dentro, a dizer versos e a beber cerveja : — António
Fogaça, Santos Mello, Solano d' Abreu, Francisco
Bastos, Pinlo da Rocha, Silvestre Falcão, Eduardo
Valle, o Pontes, Costa Macedo, Silva Cordeiro, Costa
Santos, Eug'enio Sanches da Gama, Eugénio de Castro,
Guedes de Amorim, Tito
Vespasiano Castello
Branco, Lopo de Castro,
Anfonio de Mattos Maça-
IhSes , António Horta.
BraulJo Caldas, Bernardo
Lucas , Carlos Braga,
Forbes Costa, Armelim
Júnior, Angelo Ferreira,
Eduardo Carvalho, Le-
mos Macedo, Vasques de
M esqui la, Alberto Ar-
mada, José FerrSo, Ber-
nardino Zagallo, Gusmão
Júnior, Chrispiniano da
Costa, Pires de Lima,
Abel Annibal d 'Azevedo,
So&o Baptista da Cunha
d'Eça Costa e Almeida,
Accacio Guimarães, Al-
fredo da Cunha, etc., etc.
Torre da Universidade
A esse tempo não havia ainda muito onde passar as
noites, e a regra era recolher-se quasi tudo ao toque da
Cabra, ás 6 em ponto, e depois da Paschoa ás 7.
Theatros havia dois, o Académico e o de D. Luiz. quasi
sempre fechados;^e o Circo, que ficava na Sophiaao
pé do Gazometro, ainda era mais raro do que os outros
A CASAQUEIDA 271
Sociedades havia duas : uma ao Arco d' Almedina,
que dava de quando em quando uns salsifrés, a que
eram admittidos os estudantes ricos ou que o pareciam,
e onde por isso nunca puz o pé, — e o Club dos lentes
â Sé Velha... — pavorosa instancia de que todos
fugiam, e onde raros, só os aristocratas, eram admit-
tidos em noite de festa ! A mim, nem que me pagas-
sem punha lá os pés !
Ora quiz o demónio não sei por que artes, que o
Boavida se lembrasse de ir uma noite ao Club dos
lentes, acho que a uma soirée de entrudo. Mas não
quiz ir de capa e batina! E combinado com o seu
amigo AíTonsinho, outro enfant-gaté como elle, e que
era o PoUux d'aquelle Castor, resolve-se o AíTonsinho
a ir de pagem, todo polvilhado, e elle, Boavida, de
casaca !
De casaca, — o Boavida !
Ora casaca foi coisa que eu nunca vi em Coimbra,
(salvo nos da charamela da Sala dos Capellos) pois que
os próprios lentes, nas solemnidades, vesiem-se todos
doutoralmente : envergam a capa e batina, põem o
capello por cima dos hombros, a borla não sei em
que mão, — e elles lá vão, graves, empertigados, so-
lemnes, tanto monta para a Universidade, como para
a festa da Rainha Santa a pega.' nas borlas d'algum
pendão I
De casaca, fora da Universidade, só lá vi o Rosalino
Cândido, que tendo-se munido d'esse traste para figu-
rar no centenário de Camões no grupo da imprensa,
nunca mais a tornou a despir, — e andava de casaca a
18
iN ILLO TEUPOHE
toda a hora do dia e
feito!
El noite, e sempre em corpo bera-
Dcu, portanto, muilo na vista, é claro, a casaca do
Boavida, — e o mesmo foi que náo o tornarem a lar-
gar! D'ahi por deante, ninguém passava á porta do
Boavida que lhe não pedisse a casaca, — e de noite,
faziam-sc iroupes para lh'a ir pedir :
- ó Boavida, dá cá a casaca 1
- Dá cá a casaca, ó Boavídal
A CASAQUEIDA 273
Isto n'aquella voz de mascaras ou de falsete, que é
de ir aos arames o mais íleugmatico !
O Boavida viu-se, pois, e desejou-se ! Além de lhe
não largarem a porta — «O Boavida, dá cá a casaca !»
— não era senhor de olhar para uma parede que não
visse deante uma casaca pintada ! Havia-as de todos os
tamanhos : desde a casaca para chéché, minúscula, até
á casaca para .um Adamastor, — hyperbolica !
E por baixo, escripto a crayon que se não apagava :
— «O Boavida, dá cá a casaca ! »
Iam dando em doido com o pobre rapaz, — e
rondelels á casaca foram ás dezenas, todos da graça
d'este, que me parece que é do António Feijó :
Boavida, Boavida,
Basta já de cascarrão :
Lança a casca indefinida
Nas azas da viração,
Boavida, Boavida!
Uma casaca que tem
Pintada pelas esquinas ?
Responde depressa... hein?
Porque é que assim te apepinas,
Uma casaca que tem?
Inda se outra coisa fora,
Qualquer expressão velhaca,
Tinhas razão, mas agora
Encavacar p'r a casaca...
Inda se outra coisa fora...
274 IM iLLO TEHPORE
Tu e O pagem favorito,
Ficaram embasbacados :
Mas isto não é bonito,
Não vale andarem zangados,
Tu 6 o pagem favorito.
Nos lábios do Affonsinho
Depõe um osculo ardente
E adormece de mansinho,
Alliviado, contente,
Nos lábios do Affonsinho!
Boavida, Boavida,
Basta já de cascarrão :
Lança a casca indefinida
Nas azas da viração,
Boavida, Boavida!
Até que para cumulo da troça, apparece uma vez à
Porta- Férrea, vendida a vintém, A Casaqueida, um
poema completo em oitava rima, anonymo, causticante,
e vazado, inda por cima, nos moldes clássicos dos
Lusíadas! O auctor da epopeia soube-se depois quem
era. Era o Pinto da Rocha, brazileiro, que é hoje, no
Rio, deputado não sei por onde.
Cá está o poema : (1)
(1) A Casaqueida tem um Acto addicional na 8' pagina : —
quatro quadras, parodia ao Qué dê a c/iaue, mas que por serem
um pouco livres iriam mellior no alçapão d'este livro, se o
tivesse 1 Todo o livro, devia ter o seu, e até o sr. Theopiíilo
Braga ananjou um... para o Campo de Floreai As Criplinaa!
A CASAQUEIDA 275
A CASAQUEIDA
(Epopeia)
Os Abreus e os Paixões assignalados (1)
Que em capas e batinas elegantes
Já foram no estrangeiro premiados
E ganharam medalhas e diamantes (2);
E, apezar dos calotes malcreados,
São mestres, poderosos, deslumbrantes.
Valem menos, talvez, que uma cavaca
Comparados co'o auctor da tal casaca (3).
Termine dos pelintras pés-de-banco (4)
A fama do banquete em que pensaram,
Exhalem da Revista o extremo arranco
As parodias terríveis que a troçaram ;
(1) O Abreu, era José Maria Mendes de Abreu, que tinha
então loja d'alfaiate na Calçada, defronte do livreiro Melchiades, á direita, quasi ao chegar á Portagem. É um dos
mais honrados homens que tenho conhecido, e hoje um dos
mais sympathicos e acreditados commerciantes da Lusa-Athenas. —
O Paixão muito regenerador, e de hijçode e pcra,
morava e acho que ainda mora, ao pé da Universidade,
n*aquelle quarteirão onde ficava, á esquina da rua do Borralho,
taberninha da tia Maria Camélia, (no céo esteja a fazer peixe
frito !) que morreu no meu 2.» anno, em Fevereiro, morte (que
as sebentas comemoraram sahindo esse dia todas de luto!
— Mas o alfaiate da moda era então o Barata, ao fundo de
Quebra-Costas, que, se tem vindo para Lisboa, chegava com
certeza a ministro de estado, porque tinha uma figura de conselheiro, — ultra-imponentel
(2) Diamantes... Piada ao Paixão que embirrava que lhe pedis-
sem o diamante...
(3) Provavelmente, o Barala...
(4) Pé8'de-banco, são os estudantes do 3.« anno.
Que eu exponho á bexiga em verso manco
A semiputa veste que pintaram (1),
Gesse tudo o que a troça aniigt^a canta
Que a célebre casaca se alevanta.
Estavas, Boavida, em doce enleio.
Bebendo da sebenta o puro mel
Que o Pacheco te deu em mez e meio (2) ,
Por setecentos réis em mau papel,
No saudoso Choupal em casto anceio
Esgotando da taça o amargo fel
E repetindo aos echos do caminlio
O adocicado nome do Affonsinho,
D'outros bonitos pagens e crianças
Os olhos feiticeiros esqueceste,
E no entanto por dar-te mais espYaaças
N'outro palmo de cara te prendeste.
Apresentál-o ao mundo te abalanças
Gomo prenda do céo que recebeste,
E a gente toda em fim que te apepina
A casaca pedir-te determina.
« — Traziam-na os malvados e os tyrannos
Ahi pelas paredes deseniiada.
Gomo outr'ora os trocistas deshumanos
A naiYa do Araújo celebrada;
E tu, chorando os teus fataes enganos
Gom soluços na voz entrecortada,
Supplicavas com ar tristonho e sonso
Gompaixão p'ra casaca e pr'o Affonso.
« — No vasto azul as ventas espetando
A procurar no céo trinta mil réis,
As ventas, porque as mãos iam buscando
Nos bolsos da casaca os infiéis
(1) Veste de segundannista.
(2) O Pacheco era o dono d'uma lithographia da rua das
Cozinhas, onde se imprimiam as sebentas. Ainda havia outra :
a do Manuel do Marco da Feira. vuIító Manoel das Barbas.
A CASAQUE1DA
Baguinhos com que a dieta has-de ir pagando
Ao remendão cruel entre os cruéis,
Tristemente buscavas pelo espaço
Santo que te valesse em tal.. .andaço.
Mas porque a troça enorme presentisse,
Ou porque seja então melhor dotado
De valentia ou de pulso, ou porque visse
O seu futuro atroz no céo pintado,
Ou porque emílm também lhe não fugisse
O seu mimoso Affonso alvo e doirado,
O Boavida eleva-se iracundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo.
E o povo de Coimbra ao saber tal.
Por amizade alguns, muitos por troça.
Todos pelo prodígio collossal,
Em grande multidão compacta e grossa,
Acclamavam nas ruas, immortal.
Em berreiro que pouco e pouco engrossa,
A casaca ondeando com a aragem
E os cabellos frisados do seu pagem.
Havia já três dias que findara
O triumpho ideal do Boavida;
E a trombeta da fama, que lançara
O seu nome esquecido em tanta lida,
A sua voz de todo já calara.
Quando, oh! desgraça triste e perseguida l
A casaca que os ares escurece
Pintada nas paredes apparece.
« — Tão tenebrosa vinha e tão borrada,
Que poz em todos nós um grande medo ;
Terrível o Paixão de longe brada
Que o gigante conhece pelo dedo,
E o punho cerrando em sanha irada
D'esta arte aos sábios falia do segredo :
— « Explicae, ó doutores de barraca,
Que mysterios são estes da casaca
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