dilluns, 6 d’octubre del 2014

no tempo em que eu andava em Coimbra, fui companheiro de casa no l.o anno, nos Palácios Confusos, d'um rapaz chamado Boavida, alemtejano. que a esse tempo ainda era caloiro, e teria o muito 17 annos. O cochicho que nós habitávamos tinha só logar para dois inquilinos. Era elle, no quarto debaixo, e eu só, no andar de cima. Havia uma cozinha que nunca serviu, e uma sala de jantar que nunca teve mesa — porque eu ia comer á casa contigua, de que eram veteranos o Cortez Machado, o Malebranche e o António Velloso d' Araújo; e o Boavida, esse comia não sei aonde, n'uma republica de alemtejanos obrigada a açorda todos os dias, republica de que fazia parte, como veterano, um alferes chamado Eloy. O Boavida era um rapazinho comedido, e muito mettido comsigo. Tinha cara de bom mocinho, um pouco timido e quasi seraphico, — e usava luneta d'oiro com cordão! Adivinhava-se que fora interno d'algum collegio de jesuítas, talvez de S. Fiel; e quem fez d'elle um bacharel em Direito, errou-lhe decerto a vocação! Hoje está no Alemtejo, gordo, casado e rico, — e então, já se vê, tudo menos bacharel ! Antes que me esqueça vou já contando. Este Boa- vida tinha uma mania muito curiosa. Livros que apanhasse com illustrações, ou revistas illustradas de todos os paizes, e em todas as linguas, comprava tudo, — só para se divertir a vêr os bonecos ! De modo que chegou a ter uma coUecção formidável de todas essas coisas, e o quarto d'elle era muito visitado, e parecia o quarto d'algum distribuidor de fascículos ! Ora uma noite, ia eu a entrar para casa quando me encontrei á porta com o Eduardo d' Araújo, que vinha do quarto do Boavida. O Eduardo d' Araújo era um typo de bohemio muito singular, que me dava a ideia, não sei porquê, de andar sempre meio a dormir ; e o que dizia, sempre coisas engraçadíssimas, sahía-lhe lá de dentro como por demais, parece que espreguiçando- se, mas sempre chispando ironia! Era brazíleiro, e fazia versos muito bonitos, — mas porque eram todos d'um vivo lyrísmo, e as suas composições nunca iam além de duas ou três quadras, lembrava-me eu se o Araújo traria no peito a alma de algum sabiá da sua terra, melancólico por se vêr desterrado tão longe, a estudar Direito! — Olé, tu por aqui?! — disse-lhe eu. — E verdade. Venho do quarto do Boavida.......

sabes? — acrescentou elle na sua voz descançada 
notei uma coisa... 



— ? 



— ... Que no quarto do Boavida é tudo illustrado, 
menos elle ! 

Mas siga a historia. 

No meu tempo, ainda a quasi totalidade dos estudantes 
andava sempre de capa e batina. O gorro era 
já raro pelas costas abaixo, ou cabido em cima da 
orelha. A maior parte andava cm cabello ; alguns tra- 
ziam um pequeno bonnet preto como os de viagem, e 
as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam 
ao meio das canelas, mas umas batininhas que só 
chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado do que 
outra coisa) — e a respeito de meia preta e volta de 
padre, só nos actos, e a volta ás vezes era de papel, 
e as meias d'algum theologo ! 

Ainda assim, já por lá começavam a apparecer os 
janotas, a que nós chamávamos os polainudos, que em 
sahindo da aula se vestiam á futrica, e iam para a 
Baixa de luvas amarellas, e charuto ! Esses tinham o 
seu Olympo no Café Lusitano da Calçada, d'um José 
Lúcio que era barytono, ou á porta da Ourivesaria do 
Abilio, ou da Havaneza; — e o resto, a plebe, passava 
as tardes a flanar pela Baixa, no Gaes a vêr as trica- 
nas, ou a passear pela estrada da Beira. Eu e os da 
minha troupe, faziamos estação no Anda a roda, perto 
de Santa Cruz, á porta ou n'um cubiculo lá para 
dentro, a dizer versos e a beber cerveja : — António 



Fogaça, Santos Mello, Solano d' Abreu, Francisco 
Bastos, Pinlo da Rocha, Silvestre Falcão, Eduardo 
Valle, o Pontes, Costa Macedo, Silva Cordeiro, Costa 
Santos, Eug'enio Sanches da Gama, Eugénio de Castro, 
Guedes de Amorim, Tito 
Vespasiano Castello 
Branco, Lopo de Castro, 
Anfonio de Mattos Maça- 
IhSes , António Horta. 
BraulJo Caldas, Bernardo 
Lucas , Carlos Braga, 
Forbes Costa, Armelim 
Júnior, Angelo Ferreira, 
Eduardo Carvalho, Le- 
mos Macedo, Vasques de 
M esqui la, Alberto Ar- 
mada, José FerrSo, Ber- 
nardino Zagallo, Gusmão 
Júnior, Chrispiniano da 
Costa, Pires de Lima, 
Abel Annibal d 'Azevedo, 
So&o Baptista da Cunha 
d'Eça Costa e Almeida, 
Accacio Guimarães, Al- 
fredo da Cunha, etc., etc. 




Torre da Universidade 



A esse tempo não havia ainda muito onde passar as 
noites, e a regra era recolher-se quasi tudo ao toque da 
Cabra, ás 6 em ponto, e depois da Paschoa ás 7. 
Theatros havia dois, o Académico e o de D. Luiz. quasi 
sempre fechados;^e o Circo, que ficava na Sophiaao 
pé do Gazometro, ainda era mais raro do que os outros 



A CASAQUEIDA 271 



Sociedades havia duas : uma ao Arco d' Almedina, 
que dava de quando em quando uns salsifrés, a que 
eram admittidos os estudantes ricos ou que o pareciam, 
e onde por isso nunca puz o pé, — e o Club dos lentes 
â Sé Velha... — pavorosa instancia de que todos 
fugiam, e onde raros, só os aristocratas, eram admit- 
tidos em noite de festa ! A mim, nem que me pagas- 
sem punha lá os pés ! 

Ora quiz o demónio não sei por que artes, que o 
Boavida se lembrasse de ir uma noite ao Club dos 
lentes, acho que a uma soirée de entrudo. Mas não 
quiz ir de capa e batina! E combinado com o seu 
amigo AíTonsinho, outro enfant-gaté como elle, e que 
era o PoUux d'aquelle Castor, resolve-se o AíTonsinho 
a ir de pagem, todo polvilhado, e elle, Boavida, de 
casaca ! 

De casaca, — o Boavida ! 

Ora casaca foi coisa que eu nunca vi em Coimbra, 
(salvo nos da charamela da Sala dos Capellos) pois que 
os próprios lentes, nas solemnidades, vesiem-se todos 
doutoralmente : envergam a capa e batina, põem o 
capello por cima dos hombros, a borla não sei em 
que mão, — e elles lá vão, graves, empertigados, so- 
lemnes, tanto monta para a Universidade, como para 
a festa da Rainha Santa a pega.' nas borlas d'algum 
pendão I 

De casaca, fora da Universidade, só lá vi o Rosalino 
Cândido, que tendo-se munido d'esse traste para figu- 
rar no centenário de Camões no grupo da imprensa, 
nunca mais a tornou a despir, — e andava de casaca a 

18 



iN ILLO TEUPOHE 



toda a hora do dia e 
feito! 



El noite, e sempre em corpo bera- 



Dcu, portanto, muilo na vista, é claro, a casaca do 
Boavida, — e o mesmo foi que náo o tornarem a lar- 
gar! D'ahi por deante, ninguém passava á porta do 
Boavida que lhe não pedisse a casaca, — e de noite, 
faziam-sc iroupes para lh'a ir pedir : 



- ó Boavida, dá cá a casaca 1 

- Dá cá a casaca, ó Boavídal 



A CASAQUEIDA 273 



Isto n'aquella voz de mascaras ou de falsete, que é 
de ir aos arames o mais íleugmatico ! 

O Boavida viu-se, pois, e desejou-se ! Além de lhe 
não largarem a porta — «O Boavida, dá cá a casaca !» 
— não era senhor de olhar para uma parede que não 
visse deante uma casaca pintada ! Havia-as de todos os 
tamanhos : desde a casaca para chéché, minúscula, até 
á casaca para .um Adamastor, — hyperbolica ! 

E por baixo, escripto a crayon que se não apagava : 

— «O Boavida, dá cá a casaca ! » 

Iam dando em doido com o pobre rapaz, — e 
rondelels á casaca foram ás dezenas, todos da graça 
d'este, que me parece que é do António Feijó : 



Boavida, Boavida, 
Basta já de cascarrão : 
Lança a casca indefinida 
Nas azas da viração, 
Boavida, Boavida! 



Uma casaca que tem 
Pintada pelas esquinas ? 
Responde depressa... hein? 
Porque é que assim te apepinas, 
Uma casaca que tem? 

Inda se outra coisa fora, 
Qualquer expressão velhaca, 
Tinhas razão, mas agora 
Encavacar p'r a casaca... 
Inda se outra coisa fora... 



274 IM iLLO TEHPORE 



Tu e O pagem favorito, 
Ficaram embasbacados : 
Mas isto não é bonito, 
Não vale andarem zangados, 
Tu 6 o pagem favorito. 

Nos lábios do Affonsinho 
Depõe um osculo ardente 
E adormece de mansinho, 
Alliviado, contente, 
Nos lábios do Affonsinho! 

Boavida, Boavida, 
Basta já de cascarrão : 
Lança a casca indefinida 
Nas azas da viração, 
Boavida, Boavida! 

Até que para cumulo da troça, apparece uma vez à 
Porta- Férrea, vendida a vintém, A Casaqueida, um 
poema completo em oitava rima, anonymo, causticante, 
e vazado, inda por cima, nos moldes clássicos dos 
Lusíadas! O auctor da epopeia soube-se depois quem 
era. Era o Pinto da Rocha, brazileiro, que é hoje, no 
Rio, deputado não sei por onde. 

Cá está o poema : (1) 



(1) A Casaqueida tem um Acto addicional na 8' pagina : — 
quatro quadras, parodia ao Qué dê a c/iaue, mas que por serem 
um pouco livres iriam mellior no alçapão d'este livro, se o 
tivesse 1 Todo o livro, devia ter o seu, e até o sr. Theopiíilo 
Braga ananjou um... para o Campo de Floreai As Criplinaa! 



A CASAQUEIDA 275 



A CASAQUEIDA 
(Epopeia) 



Os Abreus e os Paixões assignalados (1) 
Que em capas e batinas elegantes 
Já foram no estrangeiro premiados 
E ganharam medalhas e diamantes (2); 
E, apezar dos calotes malcreados, 
São mestres, poderosos, deslumbrantes. 
Valem menos, talvez, que uma cavaca 
Comparados co'o auctor da tal casaca (3). 

Termine dos pelintras pés-de-banco (4) 
A fama do banquete em que pensaram, 
Exhalem da Revista o extremo arranco 
As parodias terríveis que a troçaram ; 



(1) O Abreu, era José Maria Mendes de Abreu, que tinha 
então loja d'alfaiate na Calçada, defronte do livreiro Melchiades, á direita, quasi ao chegar á Portagem. É um dos 
mais honrados homens que tenho conhecido, e hoje um dos 
mais sympathicos e acreditados commerciantes da Lusa-Athenas. — 
O Paixão muito regenerador, e de hijçode e pcra, 
morava e acho que ainda mora, ao pé da Universidade, 
n*aquelle quarteirão onde ficava, á esquina da rua do Borralho, 

taberninha da tia Maria Camélia, (no céo esteja a fazer peixe 
frito !) que morreu no meu 2.» anno, em Fevereiro, morte (que 
as sebentas comemoraram sahindo esse dia todas de luto! 
— Mas o alfaiate da moda era então o Barata, ao fundo de 
Quebra-Costas, que, se tem vindo para Lisboa, chegava com 
certeza a ministro de estado, porque tinha uma figura de conselheiro, — ultra-imponentel 

(2) Diamantes... Piada ao Paixão que embirrava que lhe pedis- 
sem o diamante... 

(3) Provavelmente, o Barala... 

(4) Pé8'de-banco, são os estudantes do 3.« anno. 

 



Que eu exponho á bexiga em verso manco 
A semiputa veste que pintaram (1), 
Gesse tudo o que a troça aniigt^a canta 
Que a célebre casaca se alevanta. 

Estavas, Boavida, em doce enleio. 

Bebendo da sebenta o puro mel 

Que o Pacheco te deu em mez e meio (2) , 

Por setecentos réis em mau papel, 

No saudoso Choupal em casto anceio 

Esgotando da taça o amargo fel 

E repetindo aos echos do caminlio 

O adocicado nome do Affonsinho, 

D'outros bonitos pagens e crianças 
Os olhos feiticeiros esqueceste, 
E no entanto por dar-te mais espYaaças 
N'outro palmo de cara te prendeste. 
Apresentál-o ao mundo te abalanças 
Gomo prenda do céo que recebeste, 
E a gente toda em fim que te apepina 
A casaca pedir-te determina. 

« — Traziam-na os malvados e os tyrannos 

Ahi pelas paredes deseniiada. 

Gomo outr'ora os trocistas deshumanos 

A naiYa do Araújo celebrada; 

E tu, chorando os teus fataes enganos 

Gom soluços na voz entrecortada, 

Supplicavas com ar tristonho e sonso 

Gompaixão p'ra casaca e pr'o Affonso. 

« — No vasto azul as ventas espetando 
A procurar no céo trinta mil réis, 
As ventas, porque as mãos iam buscando 
Nos bolsos da casaca os infiéis 



(1) Veste de segundannista. 

(2) O Pacheco era o dono d'uma lithographia da rua das 
Cozinhas, onde se imprimiam as sebentas. Ainda havia outra : 
a do Manuel do Marco da Feira. vuIító Manoel das Barbas. 



A CASAQUE1DA 



Baguinhos com que a dieta has-de ir pagando 
Ao remendão cruel entre os cruéis, 
Tristemente buscavas pelo espaço 
Santo que te valesse em tal.. .andaço. 

Mas porque a troça enorme presentisse, 
Ou porque seja então melhor dotado 
De valentia ou de pulso, ou porque visse 
O seu futuro atroz no céo pintado, 
Ou porque emílm também lhe não fugisse 
O seu mimoso Affonso alvo e doirado, 
O Boavida eleva-se iracundo, 
Ameaçando a terra, o mar e o mundo. 

E o povo de Coimbra ao saber tal. 

Por amizade alguns, muitos por troça. 

Todos pelo prodígio collossal, 

Em grande multidão compacta e grossa, 

Acclamavam nas ruas, immortal. 

Em berreiro que pouco e pouco engrossa, 

A casaca ondeando com a aragem 

E os cabellos frisados do seu pagem. 

Havia já três dias que findara 

O triumpho ideal do Boavida; 

E a trombeta da fama, que lançara 

O seu nome esquecido em tanta lida, 

A sua voz de todo já calara. 

Quando, oh! desgraça triste e perseguida l 

A casaca que os ares escurece 

Pintada nas paredes apparece. 

« — Tão tenebrosa vinha e tão borrada, 
Que poz em todos nós um grande medo ; 
Terrível o Paixão de longe brada 
Que o gigante conhece pelo dedo, 
E o punho cerrando em sanha irada 
D'esta arte aos sábios falia do segredo : 
— « Explicae, ó doutores de barraca, 
Que mysterios são estes da casaca 

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