dimecres, 25 de març del 2015

Portwine! exclama êle, num arroubo. E ao depois fita olhos de êxtase no copo de água que encheu de vinho, e, rápido, vai esvaziando. Tro- cam-se brindes misteriosos, pois as falas se não entendem. Os olhos dele estão duma ternura ado- rável. Por muito tempo quere dizer-me qualquer coisa. São esforços inauditos. Aponta-me o rosto, o cabelo, a barba. Articula sons incompreensíveis. Até que, achando a palavra, arranca, numa voz de eureka: «Homme de lettres...-* Nisto, pânico na sala. A artilharia anti-aérea dispara lá fora, denunciando a chegada dos aeroPLANOS Caí num pântano! Primeiro atiraram comigo para o Quartel General da 2. a Divisão. Aí, ern úl- tima análise decidiram do meu destino. Lá fui. Está o Comando instalado em Roquetoire, num pitoresco chateau, ao qual se vai por uma longa rua, ladeada de altos choupos, pertença "dum mar- quez de qualquer coisa, agora, ao que me dizem, fazendo também a guerra para as bandas de Sa- lónica. Lá passo dois dias e uma noite até que, dado momento, um chefe de viseira sombria e modos bruscos, analisando certo mapa, resolve em seu alto juizo enviar-me para a ambulância 8. Como adrega ser comandante da ambulância o major Alves Ferreira, o Hélder Ribeiro, seu pa- rente, leva-me lá de automóvel, para fazer a apre- sentação. Este Hélder é o primeiro dentre os altos .agaloados, conhecidos e desconhecidos, em quem vejo modos humanos. Quanto aos outros, pare- cem todos profundamente ocupados com as con- geminências da guerra. . A ambulância 8? O que. será? Não julguem os senhores que a gente imagina daí a realidade complexa desta guerra. Mesmo, chegados cá, isso leva seu tempo. Uma ambulância, por exemplo, é coisa extremamente variável, quanto ao género de trabalho, a perigos e fadigas, conforme está na frente ou na rectaguarda. Esta começa a instalar-se Baptismo de Fogo 71 em Dohem a 45 quilómetros das linhas, o sufi- ciente para se cair numa horrível pasmaceira. Assenta Dohem numa pequena elevação, a meio da imensa planície flandrina; rodeia-se de pequenos bosques; e espalha por um pequeno tra- çado de ruas algumas dúzias de casas, quási todas de^mediano conforto. Terra burguesa, católica até ao beatério, com um grande colégio de educação acentuadamente religiosa para o sexo feminino, muitos padres e irmãs professas, e até famílias mo- nárquicas- que atribuem à República os desastres da guerra, pelas deficiências do exército. Aqui se leva apenas a vida da aldeia, com algum passeio, a missa ao domingo e um paisa- nismo, que certas» preocupações militares tornam mais soma e ridículo. Bons e alegres camaradas quási todos . . . mas esta monotonia envenena. Só um ou outro consegue furtar-se-lhe derivando às aventuras amorosas. Como a terra oferece certas ensanchas de aco- modação, instalou-se aqui uma. outra ambulância, a 9. Quando a convivência começa a aquecer e a gente a aclimatar-se, por meados do mês, volvi- dos poucos dias sobre a minha chegada, lá tenho de seguir para a ambulância 7, em Ecques, a subs- tituir um colega, que foi de licença a Portugal. A terra é diferente. Aqui a planície tem menos ondulações. A aldeia, em si, pouco interessa: um ou outro chateau, as fermes e os estamineis do 72 Memórias da Grande Guerra costume, com a sua horrível cerveja e as suas hor- ríveis colecções de postais. De dia, findo o traba- lho médico, escreve-se e passeia-se, e à noite va- mos para os pontos mais altos vêr os lumes do front. E, como Ecques está um pouco menos à rectaguarda, vêem-se melhor na linha do horizon- te, relampagueando e pontiluzindo, os clarões da artilharia detonando, os fogachos lentos dos very- lights, e até as luzes dos aeroplanos. A certas ho- ras, quando o horizonte crepita, vem de lá um vago marulho, como aquele que tem as bravezas do Mar a longa distância. Como amostra de guerra, é pouco. Assim, a vida marasma. Estiolam as flores mais altas do espírito. Só uma vinga, esplendorosa: — a saudade, pois que toda a actividade refluiu ao íntimo e se concentra num laborar evocativo. Daí, a duas horas apenas, se vence o grande torpor; são as do correio, — a hora ansiosa em que che- gam as cartas e a outra de carinho em que se es- crevem. Vêem-se então vultos parados, de mão e pena poisada no papel e os olhos erráticos, cheios de névoa, focando ao longe espectros de graça ou paisagens idílicas que a memória exala. E toda esta gente sonha. Sonhar é o grande refúgio. Transpuseram a realidade e ei-los galo- pando sobre o mundo. O sonho é a lança d'Atila. Estes homens pálidos conquistaram a terra, abo- liram o espaço e agora ardem na eternidade viva das forças profundas. Às horas da tarde, quando 1 ¥VkV l. a Linha. Centro de Neuve-Chapelle. \\fmõria? da Grande Gierra, Baptismo de Fogo 73 as almas extravasam e imperiosamente querem comunicar, vêem-se os desterrados, a dois e dois, confidenciando em voz- baixa as suas esperanças e amarguras. Dizem que no deserto os viajantes, queima- dos da sede, se acontece adormecerem, sonham com a frescura gorgolejante das fontes. Ê vê-los: teem brasas nos olhos. E vai um ê diz: «Quando eu fôr, hei de passar tantos dias na Serra.» E outro: — «Já e-ntão o meu pequeno há de correr.» E aquele: «Irei com Ela para a beira do Mar.» As cartas então assumem por vezes o tom das éclogas. Um dia destes, censurando as cartas dos soldados, encontrei isto: «Mãe. Afinal fez bem vendendo a nossa cabrinha, se precisava de co- mer. Eu bem sei o que lhe devo como filho e não me zango. Mas tenho muita pena, isso tenho. E às vezes ponho-me a lembrar que quando aí fôr já ela não vem da horta, entrando em casa, para me co- mer à mão. A gente também ganha amizade aos animais. Mas não me zango, pois se era precisão...» Outros enviam versos, recomendam cuidados: «Olha o nosso filho... Trata de ti...» E assim a vida corre. O tempo e uma oração. As horas passam entre os dedos, como as contas dum rosário, na visão da divindade longínqua. E toda a vida profunda é um acto de saudade. Ora, aqui há dias, eu compreendi melhor esta palavra. Tive o primeiro encontro com os nossos mortos. 74 Memórias da Grande Guerra Por estas aldeias os cemitérios, por via de re- gra, confinam ou cercam as igrejas. Estas são quási sempre templos, pitorescos, construções no- vas, arremedando o gótico, cada uma com seu gracioso pormenor, — portada, vitral, painel e, á rematar, a torre esbelta de flexa alta. Fui visitar a da terra. Tinha-lhe feito o giro, no exame dos seus sumários encantos, quando meti ao pequeno cemitério a iêr os epitáfios. Vou de rua em rua, no silêncio desolado $&s lágeas e das cruzes. De longe atrái-me a vista dalgumas campas térreas, mais bem tratadas entre as outras. AprQximei-me. Estavam ali sepultados três soldados portugueses. A terra fresca ainda. À volta de cada coval uma ingénua cercadura de vergas entrelaçadas. Por ci- ma molhos de flores. À cabeceira de cada um er- guia-se uma cruz, em cujos braços havia o nome do soldado, e por cima escrito apenas: — Saudade. Ali, na terra estrangeira, naquele desvão do mundo, onde eles iam ficar, breve, ao descaso de toda a gente, aquela palavra, — erguida sôbte as três campas dentre as oferendas com que as mãos rudes imaginaram o geito das mães ou das noi- vas, — ganhou de súbito um sentido novo e tão fun- do que uma dôr aguda me cortou o peito e os olhos se me encheram de água. Era um novo baptismo de fogo. . . OS SETE CÍRCULOS DA GUERRA Outubro de 1917. Mouco a pouco, relacionamos a guerra com o ■^ espaço. É um trabalho lento: demanda estudo. Como já fiz algumas viagens, ouvi e indaguei, compreendo agora. Ainda não fui à base, à base propriamente dita, no país das delícias, à beira- mar, mas ouço falar; e porque fiz também, há dois dias, a 20, uma pequena excursão às trin- cheiras, ligados os vários ensinamentos, possuo agora uma idea, de conjunto. Ocupamos aqui uma parte da Flandres fran- cesa (servindo-nos da velha designação regional) que, em paisagem, caracteres do solo, condições de vida e até em costumes e património artístico, prolonga para ocidente as Flandres belgas — o núcleo mais rico e pitoresco da região tipo, des- dobrada ainda a oriente sobre o sul da Holanda. A terra é planturosa e feracíssima, para mais banhada dum sistema de rios e canais, largamente 76 Memórias da Grande Guerra ánastomosados, e sobejo praticável não só pelos cursos de água mas também pela rede profusa das estradas e vias férreas. A configuração do terreno, alongando-se em planície intérmina, apenas ligei- ramente montuoso, a sudeste, no Artois das flo- restas, favorece excepcionalmente essa riqueza de irrigação e itinerários. País de clima áspero e brusco, comum às zo- nas do norte, e húmido das planícies muito ba- nhadas, de inverno longo, e primavera súbita, en- charcado em chuvas e nevoeiros ou fustigado pe- las nevadas e os granizos, muitas vezes Abril ne- va-lhe ainda, mas logo em Maio desabrocha e palpita numa festa de verdura, de tão repentina exuberância, que tem seu geito de milagre. Por aí fora choupos, muitos choupos, o que traz à memória a doçura virgiliana dos nossos campos. Vida intensamente agrícola, a que faltam to- davia dois produtos essenciais ao português: — o vinho e o azeite, e em que o cavalo normando, alto e pesado, substitui o boi no auxílio do ho- mem. A esta vida, clima e terra corresponde um tipo de habitação, — a ferme, casa de lavoura, ge- ralmente enquadrando ao meio um páteo com fosso de estrumeira e distribuindo nos quatro, lan- ços de construção, a vivenda, o celeiro, o curral, o telheiro, o palheiro, coroando-se dum telhado colmado de empena altíssima, debordando o frei- Os Sete Círculos da Guerra 77 xal num pequeno alpendre, o que presta declive à neve, resguardo ao frio, e ao edifício dá um ar primitivo e gracioso de cabana. Este é o grande modelo de habitação aldeã na Flandres, variando largamente, té derivar ao tipo fruste do tugúrio, a que faltam dois ou três lanços, ou atingir no extremo oposto proporções de resi- dência solarenga para os donos dos latifúndios. Casa burguesa, que, nas vilórias, alteie andares, cerque um jardim e haja conforto logo se enfeita com o nome de chateau. E aqui e além, muito de longe em longe, nal- gum recanto de pature e sobre o teso das colinas, ergue-se um destes moinhos altos de grandes bra- ços, tão vulgares em gravura holandesa, que as- sentam sobre um eixo e alongam em cauda uma ^espécie de leme com que navegam no curso dos ventos. Nas cidades de maior vulto, nessas então, há sempre, e ao menos, o beffroi, torre antiga de. alarme, recordando os velhos tempos e dando a mancha própria e original. O habitante das aldeias é. trabalhador, sóbrio e económico, viciando por vezes este último virtuo- so atributo com o defeito a que êle pode con- duzir. Poucos homens por aqui ficaram. Levou-os a guerra. E os que restam, altos e loiros, quando pela manhã abalam, cavalgando de lado os seus cavalos toscos, atrelados a qualquer ferralha agrí- 78 Memórias da Grande Guerra cola, alevantam assim sobre esta Flandres o sím- bolo áspero da sua força e uberdade. Eis a região onde viemos parar. Estende-se a gente portuguesa por uma facha do país mais ou menos limitável dentro dum gran- de triângulo isósceles. O vértice, que entesta com a nossa linha de batalha, longa de alguns quiló- metros (12 com a entrada da 2. a divisão), medeia entre Armentières, ao norte e Bethune, ao sul; e a base, larga de 60 quilómetros, é a própria costa marítima, banhada do Mar da Mancha. Fecham- -no duas linhas que, do vértice vão terminar, uma em Calais, ao norte, outra em Etaples, ao sul. A perpendicular baixada do vértice sobre a. base de este triângulo mede 90 quilómetros. As nossas tropas distribuem-se por aí fora desde as trinchei- ras às praias e cidades marítimas, passando por^ todas as gradações possíveis que vão da vida troglodítica, ameaçada do termo a cada hora, à exis- tência regalada dum janota a banhos.

aqui por acaso em época terrível dum ano excep- 
cional, sofreram as agruras dum inverno serôdio. 
Estranharam. Retraíram-se. Breve com a sua grande 
facilidade de adaptação sentiram-se em país con- 
quistado. Como na sua grande maioria vieram das 
ocupações agrícolas, não é raro vê-los pelos campos, 
misturados com o indígena, trabalhando a terra. 

Facilmente aprenderam também da língua o 
indispensável para se fazerem entender. Além de 
que a guerra criou ^nestas paragens* uma espécie 
de argot internacional, de reduzidos termos para 
as coisas urgentes da vida, aconteceu que eles vie- 
ram encontrar no patois, a língua popular da re- 
gião, vestígios directos das línguas peninsulares» 
aqui deixados pelos dois povos respectivos, a 
quando as guerras da Flandres. É assim que mui- 
tas palavras do patois se assemelham grandemente 
às suas correspondentes em português: capeie, ca- 
pela, vaque, vaca, chope, copo, caíere, cadeira, 
frou, frio, etc. 

Todavia ocasiões há em que o português, por 
demais sabido em muitos mistérios da língua 
grandemente afecta desconhecê-los. Dum caso sei 
eu, que ouvi fortuitamente na conversa de dois 
soldados. 

Um deles contava ceita aventura que houvera 
com uma rapariga francesa, a qual, em dado 
ponto o sacudira com palavras desabridas, ao 
que êle, teimando, respondia, feito parvo: — Non 
compris !  
 O outro, que ouvia calado, comentou: — «Sim, 
sim. Curto precisavas tu que te pusessem.» 

Eis, a traços largos, o scenário e os actores. A 
acção, toda a acção epo-cómica, ninguém terá a 
coragem de a contar por inteiíp. Há conveniências 
a respeitar. Eu proponho-me dizer o mais que se- 
ja possível da verdade e, como este ponto de ob- 
servação é mau, vou mudar-me. 

Voltei de novo a Dohem, a 8. Aqui sufoca-se. 
Esta vida, triste e monótona, longe de toda a emo- 
ção profunda que não seja a lembrança dos que 
estão longe, enche deste mal terrível e tedien- 
to, destruidor da vontade a que aqui se chama 
neura. 

Ora eu vim para a guerra; não foi para isto. 
Durante muito tempo se afirmou que a ambu- 
lância ia seguir para a frente. Mas o tempo passa 
e à ambulância fica. # 

Depois o outono caminha. O vento, o frio e a 
chuva chegam. As brumas do tempo pesam tam- 
bém na alma. E dos altos da pequena aldeia, os 
poentes da Flandres, duma finura sutílima de tin- 
tas, cambiando todos os tons do roxo, laranja e 
rosa, amargam e desesperam. 

Acresce ainda que me veio irritar certo peque- 
no atrito burocrático, destes que mostram, sob a 
muita deferência exterior, a soberba dos galões, 
mal escondida. 

Tudo somado, vou partir. E no próprio dia em 
que visito as trincheiras, antes de lá chegar, re- 



82 Memórias da Grande Guerra 

queiro verbalmente ao chefe dos serviços de saú- 
de, a minha transferência para as trincheiras. No 
dia seguinte, conforme a indicação do chefe, faço 
o meu requerimento por escrito. E dois dias de- 
pois a ordem dav$-me como transferido, a meu 
pedido, para o batalhão de infantaria 23. 

Toca a arranjar a mala. 

Uf! 



ECCE HOMO!... 



Novembro de 1917. 

Mal cheguei às trincheiras, renasci. Exaltaram- 
^™* -se-me subitamente todas as faculdades de 
sentir e de viver. Depois o perigo fustiga os ner- 
vos. Acaba a gente de escapar à morte, com algu- 
ma^ boas chicotadas na medula, trémulo ainda, 
e vem-nos uma sede de vida tamanha que alguns 
minutos de alegria mais quieta embebedam a alma. 

Sinto-me novo, mais forte, e^aior... Tam- 
bém é impossível deixar de crescer sobre este 
grande chão que pisamos. 

Aos poucos entra a gente a compreender este 
mundo novo. Agora, volvidos dias, conheço, além 
da terra, o homem. 

E este, sim, é qualquer coisa de novo para 
atentar. 

Ao caminhar, da rectaguarda cá para as linhas, 
atravessam-se todos os círculos da agonia até pa- 
rar nestas planícies da morte. São as aldeias des- 



84 Memórias da Grande Guerra 

manteladas — casas mortas com as órbitas vazias 
e espigões de madeiros fracturados em ruas ce- 
miteriais; depois as zonas, onde a artilharia ligeira 
se esconde e troveja; agora os campos, eriçados 
de arame farpado, panos de paredes corcomidas, 
e granadas rebentando; emhm a terra cava-se, 
mergulhamos no chão: estamos nas trincheiras. 

Aqui a rasoira terrível da metralha apagou as 
saliências; o fogo corroeu as coisas vivas; e na 
íerra esventrada de rasgões, entre poucas ruinas 
v„esmoronadas, os fantasmas das árvores decepa- 
das gritam em vão, — mutilados da guerra, sem 
hospital. 

Um sistema de fossos rasga o chão até à al- 
tura dum homem e sucede-se em três linhas para- 
lelas, zigzagueando e entreunindo-se até aos para- 
peitos sobre a terra de ninguém. Nestes fossos 
abriram-se lateralmente algumas cavernas, espé- 
cie de silos escuros para vegetar. As granadas, e 
a chuva, aqui e ali revolvem, abrem, obstroem, 
encharcam em lama e água. Todavia, nesses fos- 
sos e cavernas, sujos e viscosos, alguns homens 
habitam. 

Tudo ali é lodo e miséria. A esperança da vida 
assenta apenas sobre o acaso. E a inquietação de- 
vora o peito nas horas lentas. 

Estes homens, que vivem dum modo nunca 
visto, ganharam com o tempo uma fisionomia es- 
pecial, tanto mais acusada, quanto mais próximo 
do inimigo. Era inevitável. A vizinhança da morte, 



EcceHomo!... 85 

as vigílias continuadas, os longos alertas de olhos 
apunhalando o escuro, à cata dos perigos, as soa- 
lheiras, as friagens e as lufadas do tempo acabam 
por tatuar e curtir a pele sobre a caveira. 

Nas caras duras e atanadas* rasgaram-se- os 
grandes sulcos dos sobrolhos e os que vão do na- 
riz ao canto da boca;- as comissuras dos lábios 
baixaram severamente: e os olhos pararam numa 
fixidez ardente de espanto e penetração. 

A imobilidade e frescura especial do rosto, que 
dão a mocidade e a vida calma, secaram, murcha- 
ram inteiramente. 

Há crianças com caras de velhos. 

A esta transformação dos rostos, corresponde 
uma outra mais profunda nas almas. 

De ao pé da morte, o olhar, que se deita so- 
bre a vida, fixa apenas as coisas essenciais. As 
mentiras caem aos farrapos e vê-se emfim a ver- 
dade na sua nudez sublime e infame. Há olhos 
cá nas trincheiras que, nos fitam e revolvem até 
aos últimos escaninhos dejiós mesmos. 

Moços de 20 qnos possuem a sabedoria de sé- 
culos. 

Quando se anda pela primeira linha, surdem, 
a espaços, dos buracos do chão, rastejando e er- 
guendo-se a custo, ou circulando nos traveses, uns 
espectros lamacentos. 

Às vezes esses fantasmas mostram os dentes 
num riso sinistro e olham com certos olhos im- 
placáveis, como quem doutro planeta com mais 



86 Memórias da Grande Guerra 

aguda vista considerasse as baixezas e os erros 
dos humanos. 

No seu conjunto esta faxa estreita das trin- 
cheiras assemelha-se na hierarquia do risco ao 
conjunto do sector. Todos os que habitam fossos 
e cavernas vivem ao pé da morte, no meio das 
balas e das granadas, que -são cegas. 

Mas os oficiais do estado maior do batalhão, 
incluindo os médicos e o comandante, são nas 
horas mais calmas, os menos expostos aos perigos, 
igual sorte, — a de todos os subalternos que os 
acompanham. Seguem-se todos os homens dos 
comandos de companhia. Chegam na escala má- 
xima do risco e da miséria os pelotões, desde o 
alferes ao soldado. E leva-se a distinção a pontos 
que uma noite certo alferes, ao galgar do talude 
para a terra de ninguém, dizia, em despedida iró- 
nica, aos companheiros que ficavam na primeira 
linha e lhe desejavam bonne chance: 

— Adeus, seus básicos. . . 

Cada um ostenta sobre o escudo com orgulho 
e prosápia fidalga quanto houver de incerteza e 
miséria na sua vida. Aqui só a valentia e o po- 
der de sacrifício valorizam os homens e aistin- 
guem as classes. 

Por um sábio acaso vim ter às trincheiras de 
Neuve-Chapelle. Em toda a grande linha da ba- 
talha poucos sectores haverá de tão pungente e 
pitoresco interesse. 

Neste lugar se deu em 1915 uma grande batalha. 



Ecce Homo!... 87 

A pequena cidade daquele nome foi terrivelmente 
arrasada e de pé ficaram apenas alguns raríssimos 
farrapos de casas, uma coluna de jardim e um 
calvário, — um lindo calvário, com o seu Cristo, 
ao alto. 

Os encontros dos combates abarrotaram os 
cemitérios próximos. Não obstante, muitos dos 
que caíram por terra, com <j revolver simultâneo 
do chão, foram sepultados ao acaso, anónimos, 
no lugar onde tombaram e sob o próprio campo 
de batalha. 

Caiu o fogo do céu, como as antigas cóleras 
dos deuses assoladores; a própria terra foi sa- 
queada até ao seio; e puro, perfeito, intacto só o 
Cristo-ficou. A meio do madeiro cravou-se uma gra- 
nada, e essa mesma não teve coragem de explodir. 

De quando em quando, sobre o terreno, "um 
mosteiro cai, abre um fundão e põe à mostra um 
pedaço hediondo de cadáver. Os vivos teem de 
viver em promiscuidade com os mortos, — mais 
do que isso, com as mutilações dos cadáveres. 
Ali, ao pé da trincheira, a meio duma dessas pa- 
redes dum poço de explosão, emergem os dois 
ossos duma perna com farrapos de podridão sus- 
pensos e uma bota ainda calçada. 

Às vezes o fedor a carne putrefacta é tão in- 
tenso que é necessário mandar tapar; outras o 
cheiro nauseabundo erra no ar, vindo não se sabe 
donde. 

Todo este chão exala carnagem, loucura, ne- 



88 Memórias da Grande Guerra 

voeiros de morte. Em certos pontos dir-se-ia que 
a terra inda está ensopada de sangue negro. 

Quando a tarde chega, nestes céus baixos e 
brumosos, apagando as formas para só deixar a 
nú a desolação imensa das coisas, aquele Cristo 
do calvário intacto, erguido no madeiro altíssimo, 
dominando toda a scena, ganha uma nova huma- 
nidade e assume não sei que proporções de reve- 
lação trágica. 

Se êle resistiu a quantas ondas destruidoras ni- 
velaram o solo é que ali simboliza uma verdade 
indestructível. 

A tarde cai mais densa. Este chão de batalha, 
— meio húmus, meio carne, que sangra e apodrece, 
este cemitério vivo, que remexe e sofre. — aumenta 
com desmesura, encharcado na mesma escura tris- 
teza, e o madeiro subiu, alto, tão alto que já o. 
Cristo estende os braços e espalma as mãos san- 
grentas para além, sobre toda a terra do martírio 
e dos combates. 

A tarde cai e afoga as coisas. Só a realidade 
terrível deste sofrimento que o chão respira, fica 
visível, sobe como uma névoa e ergue até as 
estrelas o seu corpo de lágrimas e sangue. Mais 
o escuro é denso, mais ela cresce e apaga tudo à 
volta. - • 

Uma dôr mais alta e próxima de Deus encar- 
nou sobre o mundo, dilatando sem fim, para sal- 
var os homens, a paixão do Galileu. 

E agora, lá em cima, pregado a cravos e aberto 



Ecce Homo!... 89 

em chagas contra os braços da cruz, que a treva 
alongou, vivo ainda e a gotejar aflição, agoniza 
um Cristo Maior: — é a turba martirizada, a mul- 
tidão dolorosa e redentora, o soldado da grande 
guerra. 

Na bruma da noite eu próprio perco o ser. 
Sofro e gemo a angústia do grande crucificado e 
soletro, para além do tempo, as palavras clamo- 
rosas do seu evangelho, galgando e redimindo a 
terra até aos confins, na boca dos milhões dos 
mártires-apóstolos. 



TRÊS DIAS, COMO TANTOS 



5 de Novembro. 

í— Joje fui almoçar com o Poeta Augusto Casi- 
1 A miro mais outros oficiais ao seu abrigo de 
companhia. Com o seu grande ar de veterano, já 
me levou à primeira linha, mostrando e instruindo. 

Como, todavia, as primeiras voltas não foram 
por demais emocionantes, hoje depois do almoço 
volta a guiar-me aos seus estados. 

Augusto Casimiro comanda a 3. a companhia 
do batalhão, que êle próprio baptisou de Quixote 
Company. Descendo a trincheira, atraz dele, cur- 
vado (sér alto acarreta alguns desgostos nestas 
paragens) percebo nas suas palavras que vai se- 
cretamente resolvido a oferecer-me algumas fortes 
emoções. Oh! a malícia das trincheiras... 

E, a caminho vou dizendo, com os meus bo- 
tões, que um comandante, que tão sugestivo epí- 
teto escolheu, não é dos guias mais cautos para 
viagens melindrosas. 



Três dias, como tantos 91 

Correndo a primeira linha, chama dum grupo 
de homens um deles. É o sargento Conde. Um 
moço baixo coin dois olhos firmes e ardentes nu- 
ma face pálida. O sargento parou perfilado. E êle 
aponta-mo em palavras graves e comovidas, como 
um dos -homens mais bravos e cumpridores da 
sua companhia. Por isso mo apresenta. Aperto-lhe 
a mão com alegria. 

Seguimos. A cada passo pára falando aos sol- 
dados; toma-lhes das espingardas; examina-as. 
Repreende ou louva. Em certo ponto mostra-me 
um boche do lado de lá. "Espreito a medo e lo- 
brigo também. A medo, amigos, que as balas 
assobiam apontadas às cabeças indiscretas. Ago- 
ra toma duma espingarda e aponta contra um 
boche. 

E mais adiante dá as suas ordens à guarnição 
dum morteiro para atirar alguns projécteis. 

Damos uns passos à frente, à procura de sítio 
asado para vêr o espetáculo, e o meu amável guia 
convida-me a trepar um pouco ao. parapeito. Os 
morteiros caem de lá, pan... pan... e erguem gey- 
sers de terra para o ar. Vêem-se tão bem daquele 
ponto que o meu companheiro, encantado, puxa 
dum Kodac de algibeira e começa a fotografar as 
explosões. 

Eu olho o grande Cristo, que num pequeno 
alto à nossa direita e a bôa distância mostra o 
perfil puríssimo. 

Nisto um silvo galopante vem "de lá, rasa 



92 Memórias da Grande Guerra 

numa lufada horrível as nossas cabeças; um es- 
tampido cataclísmico; a terra, os sacos, a madeira, 
nós mesmos, tudo dança, projectado; depois uma 
chuva de pedras, torrões, detritos, cai do alto, bate 
no capacete, fustiga a carne, graniza à volta, com 
violência. 

— Fomos descobertos. Toca a fugir — bra- 
da-me rapidamente o meu guia, dando-me tão 
pronto exemplo que ainda lhe ouço as palavras e 
já êle desaparece ao longe. 

Mas os silvos e os ribombos multiplicam-se e 
quando alguma rajada vem de lá mais furiosa e 
desabalada, à minha frente comandam: 

— Atira-te ao chão! . . . 

Atiramo-nos, rolamos na lama, emquanto o tem- 
pestuoso corpo passa rasgando o ar, que ruge 
agudamente com a dor, e os estilhaços voam cor- 
tadores e o chão pula e reflui com estremeções 
vulcânicos. 

Já dura aquilo há minutos. 

Por fim, ofegando, corro de cabeça alta no 
meio da tempestade, entre as explosões espanto- 
sas que fogacham incêndios sobre o chão e o es- 
padanar convulso das coisas arremessadas. . 

Chegados a um ponto relativamente seguro, 
paramos": De longe vemos e ouvimos ainda as ex- 
plosões. Eu tenho o coração a saltar-me da boca. 
Sufoco com a violência do esforço. Então o meu 
cicerone, que já tem mais treino, desata a rir a 
bandeiras despregadas dum riso que os nervos 



Três dias, como tantos 93 

excitados sacodem mais. A sua ordenança que nos 
seguiu sempre, ri também. E eu, para não fazer 
má figura, rio igualmente. 

A esta operação de fugir escondendo-se e tram- 
bulhando, — que os mais bravos praticam sempre 
que o dever não exige o contrário — chama-se ca- 
var. Saber cavar não se aprende às primeiras, 
todavia eu levei uma bôa ensaboadela. 

Rio então com vontade, quando acaso olhando 
o Cristo, o vejo ainda de perfil, mas desta vez à 
nossa esquerda. 

É que os senhores não imaginam a maratona 
velocíssima que isto representa nestas longas trin- 
cheiras aos zig-zags. 

Olhando a manga do meu casaco, negra de 
pólvora e queimada dum estilhaço, o meu compa- 
nheiro confessa que este foi dos mais violentos 
bombardeamentos que o teem colhido e conclui, 
rindo sempre, que, no seu imaginado programa, 
não figuravam números de tamanho êxito. 
 

dimarts, 10 de febrer del 2015

A QUEBRA DOS ESCUDOS Enquanto o Cardeal não tinha certeza da morte d'El-Rei D. Sebastião, não tratou fazer mudança alguma no reino, até que veio D. Francisco de Sousa, que trouxe carta de Belchior do Amarai da certeza da morte d'EI-Rei, que affirmava, como testemunha de vista, que o sepultara; com esta nova, desenganando-se o Cardeal das fracas esperanças em que estribavam, ordenaram logo em Lisboa fazer as cerimonias fúnebres que se costumam nas mortes dos Reis: pêra a qual, ajuntando-se os vereadores, pro- curadores, mesteres, e mais officiaes da camará, com os cidadãos (aos vinte e sete de Agosto, quarta feira pela manhã) na casa onde se faz a camará, sahiram d'ella por esta maneira iv vinha André Pires Rebello, alferes da cidade, em um fermoso cavallo murzelo, todo coberto com uma gualdrapa e cabeçadas de dó, e elle vestido em um capuz, com o capello na cabeça, cujas fraldas lhe chegavam ao chão : trazia uma ban- deira de canhamaço negra, mettida em uma lança, cuja largura chegava ao meio da hastea, e o compri- mento era tanto, que posta ao hombro ia arrastando pelo chão : diante do alferes ia o licenciado Lourenço Marques, juiz do CÍVEL, vestido em um capuz, com um

escudo negro na mão alevantado, arrimado na ca- 
beça, pêra que fosse visto de todos ; o qual ia cercado 
dos vereadores, procuradores, mesteres, e cidadãos, 
todos com varas negras nas mãos, e capuzes vesti- 
dos, e capellos na cabeça, a quem seguia grande mul- 
tidão de povo de pé e de cavallo, com alto pranto 
de vozes e lagrimas, com que denunciavam o senti- 
mento e tristeza da morte de um Rei mancebo, a 
quem o mundo, por sua fermosura e floreceate idade, 
adornada de grandes virtudes e estorço, promettia 
largos annos, com prosper<is triumphos. 

Com este tão triste espectáculo ia aquelle povo co- 
berto de luto, acompanhado de nojo e lagrimas, tes- 
temunhando com soluces e gemidos as maguas do 
coração de todos, por a orphandade que viam dos 
reinos postos em uma só esperança rio Cardeal In- 
fante D. Henrique, de quem, por sua iarga idade e 
consumidos membros, se não esperava successor, que 
por linha direita pudesse succeder na herança dos 
reinos. Com estas e outras considerações se acrecen- 
tava a tristeza de um povo pouco ditoso, com o des- 
emparo de tal Rei, com que em uns creciam as lagri- 
mas com dôr das angustias presentes, em outros o 
silencio com os trabalhos que esperavam. Com esta 
ordem e funeral pompa vieram aos degraus do tabo- 
leiro da Sé, e posto o licenciado Lourenço Marques 
em cima d'elles, dando signal de silencio com o es- 
cudo, começou em altas e dolorosas vozes a dizer : 
«Chorae, senhores, chorae, cidadãos, chorae, povo, a 
morte do vosso bom Rei D. Sebastião» e acabadas 
estas palavras, quebrou o escudo nos degraus, onde 
então se alevantou um alto e grande pranto de todo 
género de gente, a quem faziam companhia as mulhe- 
res que estavam pelas janellas, em quem se não en- 
xergava mais que um profundo nojo, que consumia
 os ânimos de todo o povo ; o qual cada vez se ia 
mais alevantando pelas ruas por onde ia aquelle tão 
triste espectáculo denunciador de grandes maguas : 
caminhando na forma em que já té li vieram, com 
outro escudo, que levava o doctor Duarte Lamprea, 
juiz do crime, foram até o meio da rua Nova, onde 
o quebrou pela mesma maneira acima dita, e onde 
logo alevantou outro o licenciado Gaspar Campelo, 
juiz do eive!, que o levou até o Rocio, ás escadas do 
esprital, aonde o quebrou com as mesmas palavras e 
cerimonias dos outros, d'onde voltando pelas ruas dos 
Arcos, vieram á Sé, aonde se disse uma missa
 cantada por alma d'El-Rei. 

diumenge, 18 de gener del 2015

Branca Manoel em Lisboa fôra queimada, a qual fôra bredona (?) de Violante Mendes mulher do dito Francisco Borges, e o vinha denunciar e dizer. Estando assim elles ditos padres, presente elle vigario, chegou a dita moça Madanella duas vezes, e na primeira disse a elle vigario que a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava pedir a vaquinha que era do seu menino; e da segunda que tornou disse, que a sobredita sua senhora a tornava a mandar que por amor de Deus lhe désse a vaquinha que era do seu menino que a perdera havia quatro dias. E de tudo mandou elle vigario fazer este auto, e assignou com os ditos padres aos quaes todos tres deu juramento dos Santos Evangelhos que n'esta parte tivessem todo o segredo como cousa do santo officio, e elles assim o prometteram e juraram e assignaram que a tudo se achavam presentes ás perguntas que se fizeram aos sobreditos moços, que elle vigario não quiz estivessem presentes ao fazer do auto, nem que assignassem por não serem capazes de segredo. E eu James de Moraes o escrevi,RANCHO DO CARQUEJA Ha 153 annos que um bando de estudantes, em Coimbra, acaudilhado pelo mais intrepido e de peores entranhas, começando por espancar os archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar quem lhe offerecesse reacção. Chamavam-se do e [95] não da Carqueja, como escrevem todos os que relembram a funesta existencia d'aquelles rapazes perdidos. Carqueja e Estopa haviam sido, por aquelle tempo, dous facinorosos de Vizeu, chefes dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram os estudantes o sinistro baptismo do seu bando. E é de notar e deplorar que alguns da quadrilha eram padres que cursavam theologia. Depois de repetidas atrocidades, o governo, a rogos dos habitantes de Coimbra e lentes da universidade, enviou a marchas forçadas tropa de infanteria com alguns esquadrões que chegaram de madrugada e colheram de sobresalto os criminosos. Alguns, bem que não reagissem, entraram acutilados no carcere, e foram depois morrer no Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos seus nomes: O capitão do bando era da Terra da Feira; chamava-se Francisco Jorge Ayres. João Pedro Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio Ramos, José Rodrigues Esteves, José Antonio de Azevedo, Antonio da Costa e Silva, o Pescada; o padre José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho, Roque Monteiro Paim, José de Horta, D. Manoel Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de [96] Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo, brazileiro; o padre Francisco Pereira Goes, natural de Pereira; José da Cunha Borges, do Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra; Lourenço Pimenta, Antonio Maceiro, Thomaz da Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes foram os presos conduzidos a Lisboa, afóra um estudante de Aveiro, cujo nome não sabemos, e um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos, Francisco de Sá, natural de Evora, pôde evadir-se de Coimbra para aquella cidade, e d'alli para Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a quem fôra recommendada a captura de Francisco de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe resultou ir por ordem de el-rei carregado de ferros para o Limoeiro. O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da malta, foi degolado no Pelourinho de Lisboa em junho de 1722. Antonio da Costa e Silva, de alcunha o Pescada, e José de Horta morreram na cadêa. A maior parte dos outros cumpriu sentença de degredo. Entre os presos havia um poeta, D. Manoel Alexandre da Costa, neto do primeiro conde de Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da [97] India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra preso na cáfila dos scelerados, adoeceu de vergonha, e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos 16 de novembro, quando o filho ainda estava no Limoeiro, esperando a sentença. O protector deste moço era o marquez de Marialva, a quem o estudante, desde que o prenderam relatou em toantes, á moda do tempo, as suas desventuras. É longo o poema, e fastidioso, sem impedimento do interesse inspirado pela tragedia do assumpto. Não me dispenso, porém, de trasladar as quadras que dizem mais ao intento. Refere o incidente imprevisto da prisão:

Era, em fim, de madrugada,
a hora menos escura
em que o dia irresoluto
nem se esconde, nem se occulta,


Quando com bellicas vozes
pela destra mão avulsas,
pois a eloquencia de Marte
não tem lingua, e não é muda,


Se ouvem de uma, e outra parte
gemer as portas, e ruas,
em o concavo dos montes
o ar ferido retumba.



Todos ás janellas chegam
com desordenada chusma,
quem nas janellas não cabe
talvez aos telhados suba.


Quando vem de infanteria
uma bem formada turba
forte como portugueza;
mas tyranna como turca.


Vem tambem destros ginetes
cujos pennachos, e trunfas
se tocavam das janellas
ao movimento das upas.


Por outra parte a justiça
entre os soldados vem junta,
que o ser a justiça armada
não é só para a pintura.


Das casas as portas tomam,
não de todas; mas de algumas,
pois só se emprega a vingança
onde se suspeita a culpa.


Logo de vista tam nova
com diversas conjecturas
todo o prudente se admira,
todo o culpado se assusta.


Que será, que não será,
todo o innocente pergunta;
não o pergunta o culpado
que a mesma consciencia accusa,


Quando para o desengano
de tudo o que se murmura,
a esquadra passa da porta
a guarnição que as occupa


Levando a baioneta
mettida, calçada a buxa,
muito valor, pouco termo,
pouca attenção, muita furia.


Assim entram os soldados
pelas casas mais occultas,
dem-se á prisão repetindo
ainda quando nada escuta.


Pois como vinham temendo
os do rancho, cada um cuida,
que cada taboa pregada
mil criminosos occupa.


Não ha cozinha, ou armario,
nem ha chaminé, nem tulha
que logo se não despegue,
logo não se desentupa.


Porém era muito cedo
sem que nenhum tal presuma,
pois a culpa obra-se sempre,
Que a pena espera-se nunca.


Nas camas os acham todos:
mau é que o culpado durma,
porém quem se deita tarde,
claro está que não madruga.

Alli sem trabalho os prendem;
porque alli ninguem repugna,
pois não tinham como os corpos
alli as espadas nuas.
Querem fugir; mas não podem,
pois por militar industria,
como estão guardas ás portas
não ha por onde se fuja
.

dijous, 11 de desembre del 2014

o governo da ditadura e a rebelião de loanda panfleto LisBOA 28 DE ABRIL DE 1930 ASSINAM AFONSO LOPES VIEIRA JOSÉ PEQUITO REBELO JOÃO DE VASCONCELOS E SÁ ALBERTO MANSARA E HIPÓLITO RAPOSO O PEOR ESCRITOR DOS ANOS 30....NO DIA 30 DE MARÇO UM PRONUNCIAMENTO POLÍTICO-MILITAR ASSASSINOU O TENENTE DE CAVALARIA ALFREDO DE MORAIS POR INDÍGENAS E HOMENS BRANCOS FARDADOS DE OFICIAIS DO EXÉRCITO ÀS ORDENS DE POLÍTICOS E DA MAÇONARIA LOCAL....

The Rescue - Arthur Rackham


'The Rescue' - Arthur Rackham 1910


Description

NOTA : EM VIRTUDE DAS ACTUAIS CONDIÇÕES DE CENSURA

SOLICITA-SE AO LEITOR A MÁXIMA DIVULGAÇÃO DESTE DOCUMENTO

ABAIXO SALAZAR ABAIXO A DITADURA MILITAR

VIVA SALAZAR VIVA O GOVERNO MILITAR

ENDEREÇAR ESTA FOLHA AO SENHOR PRESIDENTE DO MINISTÉRIO....

DO ULTRAMAR OU DAS COLÓNIAS PARA O CASO TANTO FAX

ÊLES ACUSAM O GOVERNO DA DITADURA DE CAPITULAR SEM COMBATE

NEM SEQUER UM ASSOMO DE ENERGIA CONTRA AS AMIAÇAS DE SEPARATISMO

DE UMA DAS PROVÍNCIAS ULTRAMARINAS

OS ABAIXO ASSIGNADOS PROTESTAM CONTRA A TRAIÇÃO DO BEM COMUM

DA NOSSA PROVÍNCIA DE ANGOLA

dilluns, 6 d’octubre del 2014

no tempo em que eu andava em Coimbra, fui companheiro de casa no l.o anno, nos Palácios Confusos, d'um rapaz chamado Boavida, alemtejano. que a esse tempo ainda era caloiro, e teria o muito 17 annos. O cochicho que nós habitávamos tinha só logar para dois inquilinos. Era elle, no quarto debaixo, e eu só, no andar de cima. Havia uma cozinha que nunca serviu, e uma sala de jantar que nunca teve mesa — porque eu ia comer á casa contigua, de que eram veteranos o Cortez Machado, o Malebranche e o António Velloso d' Araújo; e o Boavida, esse comia não sei aonde, n'uma republica de alemtejanos obrigada a açorda todos os dias, republica de que fazia parte, como veterano, um alferes chamado Eloy. O Boavida era um rapazinho comedido, e muito mettido comsigo. Tinha cara de bom mocinho, um pouco timido e quasi seraphico, — e usava luneta d'oiro com cordão! Adivinhava-se que fora interno d'algum collegio de jesuítas, talvez de S. Fiel; e quem fez d'elle um bacharel em Direito, errou-lhe decerto a vocação! Hoje está no Alemtejo, gordo, casado e rico, — e então, já se vê, tudo menos bacharel ! Antes que me esqueça vou já contando. Este Boa- vida tinha uma mania muito curiosa. Livros que apanhasse com illustrações, ou revistas illustradas de todos os paizes, e em todas as linguas, comprava tudo, — só para se divertir a vêr os bonecos ! De modo que chegou a ter uma coUecção formidável de todas essas coisas, e o quarto d'elle era muito visitado, e parecia o quarto d'algum distribuidor de fascículos ! Ora uma noite, ia eu a entrar para casa quando me encontrei á porta com o Eduardo d' Araújo, que vinha do quarto do Boavida. O Eduardo d' Araújo era um typo de bohemio muito singular, que me dava a ideia, não sei porquê, de andar sempre meio a dormir ; e o que dizia, sempre coisas engraçadíssimas, sahía-lhe lá de dentro como por demais, parece que espreguiçando- se, mas sempre chispando ironia! Era brazíleiro, e fazia versos muito bonitos, — mas porque eram todos d'um vivo lyrísmo, e as suas composições nunca iam além de duas ou três quadras, lembrava-me eu se o Araújo traria no peito a alma de algum sabiá da sua terra, melancólico por se vêr desterrado tão longe, a estudar Direito! — Olé, tu por aqui?! — disse-lhe eu. — E verdade. Venho do quarto do Boavida.......

sabes? — acrescentou elle na sua voz descançada 
notei uma coisa... 



— ? 



— ... Que no quarto do Boavida é tudo illustrado, 
menos elle ! 

Mas siga a historia. 

No meu tempo, ainda a quasi totalidade dos estudantes 
andava sempre de capa e batina. O gorro era 
já raro pelas costas abaixo, ou cabido em cima da 
orelha. A maior parte andava cm cabello ; alguns tra- 
ziam um pequeno bonnet preto como os de viagem, e 
as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam 
ao meio das canelas, mas umas batininhas que só 
chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado do que 
outra coisa) — e a respeito de meia preta e volta de 
padre, só nos actos, e a volta ás vezes era de papel, 
e as meias d'algum theologo ! 

Ainda assim, já por lá começavam a apparecer os 
janotas, a que nós chamávamos os polainudos, que em 
sahindo da aula se vestiam á futrica, e iam para a 
Baixa de luvas amarellas, e charuto ! Esses tinham o 
seu Olympo no Café Lusitano da Calçada, d'um José 
Lúcio que era barytono, ou á porta da Ourivesaria do 
Abilio, ou da Havaneza; — e o resto, a plebe, passava 
as tardes a flanar pela Baixa, no Gaes a vêr as trica- 
nas, ou a passear pela estrada da Beira. Eu e os da 
minha troupe, faziamos estação no Anda a roda, perto 
de Santa Cruz, á porta ou n'um cubiculo lá para 
dentro, a dizer versos e a beber cerveja : — António 



Fogaça, Santos Mello, Solano d' Abreu, Francisco 
Bastos, Pinlo da Rocha, Silvestre Falcão, Eduardo 
Valle, o Pontes, Costa Macedo, Silva Cordeiro, Costa 
Santos, Eug'enio Sanches da Gama, Eugénio de Castro, 
Guedes de Amorim, Tito 
Vespasiano Castello 
Branco, Lopo de Castro, 
Anfonio de Mattos Maça- 
IhSes , António Horta. 
BraulJo Caldas, Bernardo 
Lucas , Carlos Braga, 
Forbes Costa, Armelim 
Júnior, Angelo Ferreira, 
Eduardo Carvalho, Le- 
mos Macedo, Vasques de 
M esqui la, Alberto Ar- 
mada, José FerrSo, Ber- 
nardino Zagallo, Gusmão 
Júnior, Chrispiniano da 
Costa, Pires de Lima, 
Abel Annibal d 'Azevedo, 
So&o Baptista da Cunha 
d'Eça Costa e Almeida, 
Accacio Guimarães, Al- 
fredo da Cunha, etc., etc. 




Torre da Universidade 



A esse tempo não havia ainda muito onde passar as 
noites, e a regra era recolher-se quasi tudo ao toque da 
Cabra, ás 6 em ponto, e depois da Paschoa ás 7. 
Theatros havia dois, o Académico e o de D. Luiz. quasi 
sempre fechados;^e o Circo, que ficava na Sophiaao 
pé do Gazometro, ainda era mais raro do que os outros 



A CASAQUEIDA 271 



Sociedades havia duas : uma ao Arco d' Almedina, 
que dava de quando em quando uns salsifrés, a que 
eram admittidos os estudantes ricos ou que o pareciam, 
e onde por isso nunca puz o pé, — e o Club dos lentes 
â Sé Velha... — pavorosa instancia de que todos 
fugiam, e onde raros, só os aristocratas, eram admit- 
tidos em noite de festa ! A mim, nem que me pagas- 
sem punha lá os pés ! 

Ora quiz o demónio não sei por que artes, que o 
Boavida se lembrasse de ir uma noite ao Club dos 
lentes, acho que a uma soirée de entrudo. Mas não 
quiz ir de capa e batina! E combinado com o seu 
amigo AíTonsinho, outro enfant-gaté como elle, e que 
era o PoUux d'aquelle Castor, resolve-se o AíTonsinho 
a ir de pagem, todo polvilhado, e elle, Boavida, de 
casaca ! 

De casaca, — o Boavida ! 

Ora casaca foi coisa que eu nunca vi em Coimbra, 
(salvo nos da charamela da Sala dos Capellos) pois que 
os próprios lentes, nas solemnidades, vesiem-se todos 
doutoralmente : envergam a capa e batina, põem o 
capello por cima dos hombros, a borla não sei em 
que mão, — e elles lá vão, graves, empertigados, so- 
lemnes, tanto monta para a Universidade, como para 
a festa da Rainha Santa a pega.' nas borlas d'algum 
pendão I 

De casaca, fora da Universidade, só lá vi o Rosalino 
Cândido, que tendo-se munido d'esse traste para figu- 
rar no centenário de Camões no grupo da imprensa, 
nunca mais a tornou a despir, — e andava de casaca a 

18 



iN ILLO TEUPOHE 



toda a hora do dia e 
feito! 



El noite, e sempre em corpo bera- 



Dcu, portanto, muilo na vista, é claro, a casaca do 
Boavida, — e o mesmo foi que náo o tornarem a lar- 
gar! D'ahi por deante, ninguém passava á porta do 
Boavida que lhe não pedisse a casaca, — e de noite, 
faziam-sc iroupes para lh'a ir pedir : 



- ó Boavida, dá cá a casaca 1 

- Dá cá a casaca, ó Boavídal 



A CASAQUEIDA 273 



Isto n'aquella voz de mascaras ou de falsete, que é 
de ir aos arames o mais íleugmatico ! 

O Boavida viu-se, pois, e desejou-se ! Além de lhe 
não largarem a porta — «O Boavida, dá cá a casaca !» 
— não era senhor de olhar para uma parede que não 
visse deante uma casaca pintada ! Havia-as de todos os 
tamanhos : desde a casaca para chéché, minúscula, até 
á casaca para .um Adamastor, — hyperbolica ! 

E por baixo, escripto a crayon que se não apagava : 

— «O Boavida, dá cá a casaca ! » 

Iam dando em doido com o pobre rapaz, — e 
rondelels á casaca foram ás dezenas, todos da graça 
d'este, que me parece que é do António Feijó : 



Boavida, Boavida, 
Basta já de cascarrão : 
Lança a casca indefinida 
Nas azas da viração, 
Boavida, Boavida! 



Uma casaca que tem 
Pintada pelas esquinas ? 
Responde depressa... hein? 
Porque é que assim te apepinas, 
Uma casaca que tem? 

Inda se outra coisa fora, 
Qualquer expressão velhaca, 
Tinhas razão, mas agora 
Encavacar p'r a casaca... 
Inda se outra coisa fora... 



274 IM iLLO TEHPORE 



Tu e O pagem favorito, 
Ficaram embasbacados : 
Mas isto não é bonito, 
Não vale andarem zangados, 
Tu 6 o pagem favorito. 

Nos lábios do Affonsinho 
Depõe um osculo ardente 
E adormece de mansinho, 
Alliviado, contente, 
Nos lábios do Affonsinho! 

Boavida, Boavida, 
Basta já de cascarrão : 
Lança a casca indefinida 
Nas azas da viração, 
Boavida, Boavida! 

Até que para cumulo da troça, apparece uma vez à 
Porta- Férrea, vendida a vintém, A Casaqueida, um 
poema completo em oitava rima, anonymo, causticante, 
e vazado, inda por cima, nos moldes clássicos dos 
Lusíadas! O auctor da epopeia soube-se depois quem 
era. Era o Pinto da Rocha, brazileiro, que é hoje, no 
Rio, deputado não sei por onde. 

Cá está o poema : (1) 



(1) A Casaqueida tem um Acto addicional na 8' pagina : — 
quatro quadras, parodia ao Qué dê a c/iaue, mas que por serem 
um pouco livres iriam mellior no alçapão d'este livro, se o 
tivesse 1 Todo o livro, devia ter o seu, e até o sr. Theopiíilo 
Braga ananjou um... para o Campo de Floreai As Criplinaa! 



A CASAQUEIDA 275 



A CASAQUEIDA 
(Epopeia) 



Os Abreus e os Paixões assignalados (1) 
Que em capas e batinas elegantes 
Já foram no estrangeiro premiados 
E ganharam medalhas e diamantes (2); 
E, apezar dos calotes malcreados, 
São mestres, poderosos, deslumbrantes. 
Valem menos, talvez, que uma cavaca 
Comparados co'o auctor da tal casaca (3). 

Termine dos pelintras pés-de-banco (4) 
A fama do banquete em que pensaram, 
Exhalem da Revista o extremo arranco 
As parodias terríveis que a troçaram ; 



(1) O Abreu, era José Maria Mendes de Abreu, que tinha 
então loja d'alfaiate na Calçada, defronte do livreiro Melchiades, á direita, quasi ao chegar á Portagem. É um dos 
mais honrados homens que tenho conhecido, e hoje um dos 
mais sympathicos e acreditados commerciantes da Lusa-Athenas. — 
O Paixão muito regenerador, e de hijçode e pcra, 
morava e acho que ainda mora, ao pé da Universidade, 
n*aquelle quarteirão onde ficava, á esquina da rua do Borralho, 

taberninha da tia Maria Camélia, (no céo esteja a fazer peixe 
frito !) que morreu no meu 2.» anno, em Fevereiro, morte (que 
as sebentas comemoraram sahindo esse dia todas de luto! 
— Mas o alfaiate da moda era então o Barata, ao fundo de 
Quebra-Costas, que, se tem vindo para Lisboa, chegava com 
certeza a ministro de estado, porque tinha uma figura de conselheiro, — ultra-imponentel 

(2) Diamantes... Piada ao Paixão que embirrava que lhe pedis- 
sem o diamante... 

(3) Provavelmente, o Barala... 

(4) Pé8'de-banco, são os estudantes do 3.« anno. 

 



Que eu exponho á bexiga em verso manco 
A semiputa veste que pintaram (1), 
Gesse tudo o que a troça aniigt^a canta 
Que a célebre casaca se alevanta. 

Estavas, Boavida, em doce enleio. 

Bebendo da sebenta o puro mel 

Que o Pacheco te deu em mez e meio (2) , 

Por setecentos réis em mau papel, 

No saudoso Choupal em casto anceio 

Esgotando da taça o amargo fel 

E repetindo aos echos do caminlio 

O adocicado nome do Affonsinho, 

D'outros bonitos pagens e crianças 
Os olhos feiticeiros esqueceste, 
E no entanto por dar-te mais espYaaças 
N'outro palmo de cara te prendeste. 
Apresentál-o ao mundo te abalanças 
Gomo prenda do céo que recebeste, 
E a gente toda em fim que te apepina 
A casaca pedir-te determina. 

« — Traziam-na os malvados e os tyrannos 

Ahi pelas paredes deseniiada. 

Gomo outr'ora os trocistas deshumanos 

A naiYa do Araújo celebrada; 

E tu, chorando os teus fataes enganos 

Gom soluços na voz entrecortada, 

Supplicavas com ar tristonho e sonso 

Gompaixão p'ra casaca e pr'o Affonso. 

« — No vasto azul as ventas espetando 
A procurar no céo trinta mil réis, 
As ventas, porque as mãos iam buscando 
Nos bolsos da casaca os infiéis 



(1) Veste de segundannista. 

(2) O Pacheco era o dono d'uma lithographia da rua das 
Cozinhas, onde se imprimiam as sebentas. Ainda havia outra : 
a do Manuel do Marco da Feira. vuIító Manoel das Barbas. 



A CASAQUE1DA 



Baguinhos com que a dieta has-de ir pagando 
Ao remendão cruel entre os cruéis, 
Tristemente buscavas pelo espaço 
Santo que te valesse em tal.. .andaço. 

Mas porque a troça enorme presentisse, 
Ou porque seja então melhor dotado 
De valentia ou de pulso, ou porque visse 
O seu futuro atroz no céo pintado, 
Ou porque emílm também lhe não fugisse 
O seu mimoso Affonso alvo e doirado, 
O Boavida eleva-se iracundo, 
Ameaçando a terra, o mar e o mundo. 

E o povo de Coimbra ao saber tal. 

Por amizade alguns, muitos por troça. 

Todos pelo prodígio collossal, 

Em grande multidão compacta e grossa, 

Acclamavam nas ruas, immortal. 

Em berreiro que pouco e pouco engrossa, 

A casaca ondeando com a aragem 

E os cabellos frisados do seu pagem. 

Havia já três dias que findara 

O triumpho ideal do Boavida; 

E a trombeta da fama, que lançara 

O seu nome esquecido em tanta lida, 

A sua voz de todo já calara. 

Quando, oh! desgraça triste e perseguida l 

A casaca que os ares escurece 

Pintada nas paredes apparece. 

« — Tão tenebrosa vinha e tão borrada, 
Que poz em todos nós um grande medo ; 
Terrível o Paixão de longe brada 
Que o gigante conhece pelo dedo, 
E o punho cerrando em sanha irada 
D'esta arte aos sábios falia do segredo : 
— « Explicae, ó doutores de barraca, 
Que mysterios são estes da casaca 

dijous, 11 de setembre del 2014

THE WHOOPING ITALIAN OU O ITALIANO SALTITANTE ALGURES NO ANO DE 1988? 1987? A WIKIPEDIA DIZ 1987...E O PING-PONG NÃO APARECE COMO WHOOPING ITALIAN ... Appearance of the Vienna virus, which was subsequently neutralized—the first time this had happened on the IBM platform.[14] Appearance of Lehigh virus (discovered at its namesake university),[14] boot sector viruses such as Yale from USA, Stoned from New Zealand, Ping Pong from Italy, and appearance of first self-encrypting file virus, Cascade. Lehigh was stopped on campus before it spread to the wild, and has never been found elsewhere as a result. A subsequent infection of Cascade in the offices of IBM Belgium led to IBM responding with its own antivirus product development. Prior to this, antivirus solutions developed at IBM were intended for staff use only. October: The Jerusalem virus, part of the (at that time unknown) Suriv family, is detected in the city of Jerusalem. The virus destroys all executable files on infected machines upon every occurrence of Friday the 13th (except Friday 13 November 1987 making its first trigger date May 13, 1988). Jerusalem caused a worldwide epidemic in 1988.[14] November: The SCA virus, a boot sector virus for Amigas appears, immediately creating a pandemic virus-writer storm. A short time later, SCA releases another, considerably more destructive virus, the Byte Bandit. December: Christmas Tree EXEC was the first widely disruptive replicating network program, which paralyzed several international computer networks in December 1987. 1988 March 1: The Ping-Pong virus (also called Boot, Bouncing Ball, Bouncing Dot, Italian, Italian-A or VeraCruz), an MS-DOS boot sector virus, is discovered at University of Turin in Italy.

VIRUS COMO MATERIAL DE ENGENHARIA GENÉTICA DO FUTURO

AS ESTAÇÕES DE MELHORAMENTO CLÁSSICAS SÃO HOJE ANTROS FOSSILIZADOS

CHEIOS DE SUBSTÂNCIAS CARCINOGÉNICAS E AGRICULTURA CONVENCIONAL

COMO HÁ 8 MIL OU 10 OU MAIS MILHARES D'ANOS NA REVOLUÇÃO NEOLÍTICA

QUIÇÁ UM POUCO MAIS APARELHADAS E SISTEMÁTICAS

MAS O MESMO TIPO DE MELHORADORES

QUE POUCO SE AFASTAM DA VIA ESTÚPIDA DO SÉCULO XIX

ATASCADOS NO MELHORAMENTO À MENDELIANA

SÃO INCAPAZES DE INVESTIR EM OUTRAS VIAS

SE OS VÍRUS POR VIA MERISTEMÁTICA PODEM CONTAMINAR A SEMENTE

FUTURA

O USO COMO VECTORES DE INFORMAÇÃO GENÉTICA PODE SER O FUTURO

EM ESPÉCIES IMPOSSÍVEIS DE MELHORAR POR VIA TRADICIONAL

COMO AS ARBÓREAS DE LONGA VIDA

SOBREIRO PRODUÇÃO TARDIA COLHEITAS DE 9 EM 9 OU 10 EM 10 ANOS

MELHORAR A LONGEVIDADE É IMPORTANTÍSSIMO PARA O FUTURO SÉCULO

OU SÉCULOS...

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO DECORREM 35 ANOS

SE FOREM NECESSÁRIAS DIGAMOS 10 OU 12 GERAÇÕES DE CRUZAMENTOS

PARA OBTER ORGANISMOS HOMOZIGÓTICOS EM ALTA QUANTIDADE

PRECISÁVAMOS DE 350 A 420 ANOS

RESUMINDO JÁ DEVÍAMOS TER COMEÇADO NO TEMPO DO CAMÕES

UNIFORMIDADE DE FRUTOS ...GLANDES ...SEMENTES

ENFIM BOLOTAS PARA TRABALHO DE MELHORAMENTO

É INEXEQUÍVEL POR ESTA VIA

PRINCIPALMENTE DADA A GRANDE VARIABILIDADE

E O GRANDE NÚMERO DE CARACTERES VARIÁVEIS

E LOGO O ENORME Nº DE COMBINAÇÕES POSSÍVEIS

A ESTATURA O PORTE E O PAP (PERÍMETRO ALTURA DU....PATO...

A FLORAÇÃO CARACTERISTICAMENTE FEMININA

ENFIM PREGAR MELHORAMENTO EM 8 OU 9 OU MESMO MENOS GERAÇÕES

PARA GERAÇÕES DE 35 ANOS CADA É DUMA IMBECILIDADE COMPLETA

VIRUS E INDUTORES DE TUMORES COMO A HÉRNIA OU POTRA DA COUVE

SERÃO O FUTURO DA GENÉTICA NO SÉCULO XXI...OU XXII...

VENHA A NÓS A III MUNDIAL ....AMÉN

MUTAGÉNESE POR RADIAÇÃO É JOGAR AOS DADOS CUM DEO EX MACHINE GUN...